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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Disque L para lesar

Vocês devem nao andar se perguntando onde foram parar as historias da casa em que eu morava com mais dez pessoas. Pois bem, ha mais de três anos, eu mudei de casa e de bairro. Agora, eu moro no bairro mais popular de Lyon: a Guillotière. Esse bairro tem tanto macho assediador de beira de calçada, que eu ja dediquei um post sobre o assunto ha quatro anos, antes mesmo de morar no bairro. "Luci, se o bairro é tao foda assim, por que você escolheu morar la?" Gente, deixa eu escolher pelo menos o bairro onde eu vou morar! "Ah, entao nao reclama". Olha, o blog é meu, eu reclamo se eu quiser. Alias, eu nem sei com quem eu tou discutindo... Entao, continuando. 

Tem um bando de desocupado pelas calçadas. Eles passam o dia todo la, vendendo haxixe e marlboro falsificado. Alias, esses sao os menos desocupados. Os desocupados profissionais, te cantam quando você passa. Mas atençao, nao é aquela "cantada" de brasileiro quero-te-colocar-de-quatro-e-ripa-na-chulipa. A cantada é mais estilo "você é muito charmosa", "bom dia, hmm", o que leva muito macho a achar que estamos exagerando quando nos indignamos com esses tratamentos. Mas creiam-me: quando você escuta isso com frequência, você ja sai de casa botando sangue pelos olhos! Ou soh sou eu que reajo assim? Siiiim, soh você, Virgem Maria dos anos 90.

Diferentona

Alias, quando eu era criança, eu morria de medo dessas historias de Virgem que chora, de colchao que pega fogo sozinho. Um dia minha mae saiu de casa e eu fiquei vendo Gugu com meu irmao mais velho. O programa falava sobre uma estatua da Virgem que chorava sangue. Olha, eu tava tao tensa, que se meu irmao tivesse espirrado na hora, eu nao estaria aqui agora escrevendo besteira pra vocês, teria passado dessa pra melhor, morta de susto. Enfim, divago. O caso é que eu passei a reagir com certa frequencia às cantadas, à medida em que os anos foram passando. 

Entao, ha duas semanas, la estava eu tranquilamente andando na calçada com a criança tranquila que tomo conta, numa tarde muito tranquila. Estavamos voltando pra casa quando, de repente, um homem que estava dentro de um carro estacionado me chamou pra pedir uma informaçao. Eu fui com certa cautela, sem me aproximar muito. Por que? Porque quando eu era pequena, eu lembro de estar brincando na rua com meus irmaos/amigos e de um cara ter parado num carro pedindo informaçao. Ele queria saber onde tinha uma farmacia no bairro, porque ele tinha levado uma picada de abelha. Eu deixo vocês imaginarem onde ele tinha levado a picada. Pois é. Os anos 90 foram recheados de Caverna do Dragao e trauma. Inclusive, la vai mais um sobre o tema. 

(Aquele momento em que você usa seu blog como terapia) 

Eu tava andando pelo bairro com uma amiga e a prima dela. A gente devia ter uns 9/10 anos, no maximo. De repente, numa tarde muito intranquila, um bigodudo de boné passa de bicicleta pela gente mostrando as vergonhas dele. A vista daquele bigode pendurado me chocou bastante. Os bigodes eram muito comuns nos anos 90. Tinha até na televisao, assim, no domingo à tarde, pra qualquer criança ver. 

Mas voltando pra semana passada, eu fui andando com cautela até o carro do cara que queria a tal informaçao. Peguei a criança pela mao e fiquei ha uma distância de pelo menos dois metros dele. O cara pediu a informaçao aos cochichos achando que eu iria me aproximar. 

- Shhhffftiijjjj?
- EH O QUE, OMI?
- Eh... Onde fica o Sixième?
- Fica praquele lado la, oh.
- Ah ok. (...) Você é muito charmosa!



Coroi. Ele disse essa, acelerou e foi embora. Eu queria ter tido alguma coisa pra arremessar naquele carro, mas eu soh tinha a criança comigo, achei melhor nao. Eu voltei pra casa bufando, passei um péssimo dia. Dois dias depois, às 8h30 da manha, fui trabalhar e, quando tava entrando pela porta do prédio da guria, um cara passa por mim dizendo algo e fazendo cara de quem nunca viu mulher na vida. Claro que eu mandei ele calar a boca e claro que ele veio atras de mim. 

(Insira meu pânico aqui)

Entrei no prédio rapidamente, fechei a porta de madeira maciça, passei pela segunda porta, de vidro. Ele abriu a porta de madeira com um chute, eu abri a porta do elevador e paramos ali. Ele abriu a boca, mostrou os dentes e, com os olhos, gritou: "Sua promiscua! Putéfia!" (Optei pela traduçao que iria choca-los menos). "Zoupeira, croia!" Sem esperar que ele descobrisse que a porta de vidro nao tranca, eu peguei o elevador, toda cagadinha.

No dia seguinte, eu começaria o trabalho no mesmo horario. Fiquei com medo do insano estar me esperando no mesmo lugar, mas o Céu foi clemente e era dia de chuva. Chuva = guarda-chuva = Luci-dissimulando-o-rosto-com-guarda-chuva. Dai la estava eu na minha cautela tao caracteristica, andando e escondendo a cara, andando e colocando o guarda-chuva entre mim e os passantes, qualquer um, pra evitar antigas e novas confusoes. Dois caras vinham se aproximando no sentido oposto. Eu fui avançando em direçao a eles e, quando iamos nos cruzando, eu coloquei discretamente a umbrela entre a gente pra evitar qualquer contato. Foi quando um deles se jogou na minha frente, se agachou, avaliou meu rosto, sorriu e disse "ah sim ! Ela é linda!" e foi embora com o amigo sorrindo. Aih meus olhos foram chuvendo até o trabalho.

A verdade é que no dia em que o doido entrou no prédio, eu decidi me inscrever nas aulas de Krav Maga PORQUE VIOLENCIA A GENTE RESOLVE COM VIOLENCIA porque eu queria ter um pouco mais de auto-controle. Pra isso, eu tinha que ter um certificado médico provando que eu era apta pra atividades fisicas. Fui no médico, aquele mesmo que diagnosticou minha tosse de louco, e tivemos o seguinte dialogo:

- Dotô, eu queria um certificado médico.
- (escrevendo de cabeça baixa) Pra quê?
- Pra praticar uma atividade fisica...
- (escrevendo de cabeça baixa) Qual?
- Krav Maga.
- (cabeça baixa) Por que?
- Porque eu fui agredida na rua por um cara e...
- (para de escrever e levanta a cabeça com um sorriso) Aaah! Entao você quer bater nos homens?!

Pra falar a verdade, eu gostaria muito de estripar uns dois ou três, mas poder me defender em caso de ataque ja ta bem bom! Aih ele perguntou o que os caras me diziam. E é foda contar, né, porque, primeiro, isso nao vem ao caso, segundo, isso nao vem ao caso mesmo. Mas como eu falo pra caralho, eu disse que os caras soltam uns clichês e/ou fazem uns barulhos com a boca.

- Que tipo de barulhos?
- Ah, sei la!
- (assoviando) Fiu-fiu? 

Haha Meu filho, nin-guém faz fiu-fiu hoje em dia! A gente soh vê isso em propaganda de creme solar ou de cerveja. Na vida real os caras trincam os dentes e chupam a saliva. Arfam com a lingua do lado de fora.

- Nhé... eles dizem fiu-fiu... é... isso mesmo.
- Ta bom. Entao, vamos pra sala de exame. Tire somente a blusa e o sutia.
- Certo.
- Fiu-fiu! he-he-he

Juro. A pessoa tem que jurar no caralho desse blog, mas é verdade. O cara simplesmente assoviou. Bom, ele fez isso assim que eu levantei, antes que eu me despisse, mas ainda assim: achando que essa seria uma PIADA MUTCHO LOKA! Selo Gentili de aprovaçao. E depois ele ainda disse que era loucura se "inflamar" porque "homem é assim mesmo, sempre foi". Magina, broder! A mulher vai no seu consultorio traumatizada pelo pedofilo que tem ataque anafilatico peniano, pelo homem de bigode na bicicleta, pelos insanos da Guillotière e dezenas de outros ainda. Ela ta traumatizada a ponto de resolver fazer um esporte de combate pra se defender no caminho da propria casa e você, seu médico pessoal, depois de ouvir tudo, decide o quê? O quê? Fazer uma piada com assédio e ainda justifica-lo. Claro. Pensando bem, era bem inofensivo essa Virgem que menstrua pelos olhos. Sdds. 


::

E pra quem é de feici:

.caso.me.esqueçam.




segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A questão do gênero na Guillotière

efeito dos ventos lioneses


Quanto eu escuto todas as portas da casa batendo por causa do vento, até as fechadas - o vento abre a porta usando o trinco e a fecha novamente -, eu sei que nao é um bom momento pra sair de casa, ainda mais de bicicleta. Mas eu tive aula e fui obrigada a sair de casa (faz uns 24 anos que eu lamento essa frase). Normalmente, o trajeto se da numa grande avenida que segue ladeira abaixo. Entao, soh tenho que ter cuidado pra nao ser atropelada pelo tramway e tudo certo, mal preciso pedalar. Soh que semana passada tava tenso. Foi a primeira vez que eu andei de ré numa bicicleta. O vento parecia um coice e, quanto mais eu fazia esforço, mais eu sentia a resistência dele. Mas enfrentei o vento, enfrentei a aula e fui contente pra Guillotière encontrar um amigo praquela cerveja de fim de tarde.

Guillotiere é um famoso bairro de Lyon, famoso sobretudo pelas cantadas dos punheteiros sedutores de plantao que te cantam com tanta convicçao que sao capazes de te engravidar soh te dando bom dia - por isso, eu fecho as pernas e os ouvidos quando ando por essas bandas. Infelizmente, nao da pra evitar o bairro porque é onde se encontra um dos lugares mais visitados na cidade: o rio Rhone. Fui enfrentando ventos e homens pra encontrar o tal amigo na beira do rio.

Comprei umas cervejas, escolhi um lugar tranquilo e sentei tensa com todas as aproximaçoes suspeitas. Um cara veio, perguntou se eu tinha um isqueiro e saiu de boa com a negativa. Mas nao tive tanta sorte com o segundo, que sentou bem do meu ladinho. 

- E aih, tudo bem?
- Ah, nao, cara. Por favor. Você nao vem pra isso, né?
- Nao, nao vou incomodar.
- Tarde demais.
- Soh quero... sei la... A vida é bonita, né?

Eu achava que conversa mais vazia que a de elevador nao existia. Mas encontramos um novo adversario, senhoras e senhores: a conversa de beira de rio. Ela começou assim, mas se dirigiu pra isso:

- Que marca roxa é essa aih no seu braço?
- Nao sei, acho que bati na porta ontem...
- Nao foi o seu namorado, né?
- Errr... nao. Mas ja essa marca aqui, oh, foi da agulha do exame de sangue que fiz ontem.
- Você tem AIDS?

Juro. O cara simplesmente perguntou se eu tinha AIDS. Tudo muito tranquilo. Oi, tudo bem, a vida é bela, você tem AIDS? Enquanto isso, ja tinha enviado mensagens de socorro ao meu amigo pra que ele viesse logo me tirar daquela situaçao. Quando o inquisidor me viu com o celular, disse que iria embora "porque seu namorado pode nao gostar que eu esteja aqui". Ou seja. Foda-se se você nao curte minha presença, o negocio é nao estar aqui quando o macho chegar. Depois apareceu dois caras vendendo dorgas. O legal é que em nenhum momento eles ofereceram pra mim, soh pro meu amigo. Alias, eles nem sequer me olharam. Eu nao ia aceitar de todo jeito, mas acho um absurdo esse machismo. Até dos traficantes! Aff.


Pelo direito de ser tomada por uma drogada!



Quando o amigo chegou, pedi pra que fossemos pra minha area preferida do Rio: entre o banheiro publico e o lugar onde vende cerveja. Estratégia, amigos. Os banheiros publicos de Lyon foram reformados e agora as cabines, que ficam espalhadas pela cidade, tem uma porta automática que se abre apos o uso para ser completamente lavadas automaticamente. O tempo de lavagem é sempre o mesmo, pouco importa a sujeira do banheiro, mas ele pode ser mais ou menos longo de acordo com o peso da sua bexiga ja que a porta se fecha por um bom minuto. Daih que eu fui pela primeira vez, naquela noite. Aguardei pacientemente o usuario sair. A porta calmamente fechou ao mesmo tempo que uma voz automatica começou a narrar as etapas da lavagem onde o banheiro tem que estar vazio. Uma vez que ele estava limpo, entrei, fiz meu pipi transparente e voltei a beber. 

Mas uma vez que fomos uma primeira vez ao banheiro, morreu, amigo, as idas serao cada vez mais frequentes. Entao, 30 min depois, la estava eu de novo, soh que dessa vez, tinha duas pessoas na minha frente. Dois caras. Fiquei branca, porque acho que eles tavam la para fazer cocô - porque, né, o cara que ta realmente se mijando nao vai ficar esperando o Galvao Bueno dos toilettes narrar como é que o banheiro sera lavado, ele vai logo é no cantinho da rua e pronto (como um animal, alias. Mas bom, diante de uma grande necessidade, somos todos animais) mas isso ainda nao da motivo de violar alguém, amiguinhos. boa noite! Entao, era cocô. E, a cada etapa, a vozinha que narrava. E abre e fecha e lava e abre e fecha e caga e abre e fecha e lava e abre. Uma eternidade. E eu la, mudando de cor. Perninha cruzada. Olhos marejados. Arrepios. Abre caceta. Para de cagar. Limpa logo essa bunda. Meu deus, nao me deixa fazer xixi aqui, por favor. Eu sou tao jovem.

E dai, a porta abre. Tudo bem que ela leva 50 seg para abrir, mas ela abre. E dai eu entro no banheiro tentando andar o mais rapido possivel abrindo minimamente as pernas. Percebam. E a voz recomeça. 

- Porta automatica, fechando em cinco segundos para lavagem.
- Vai, vai, fecha.
- Porta fechada.
- Creioemdeuspaitodopoderosocriadordoceuvailogo 
- Iniciando a lavagem.
- *suspiro
- Chuuaaaaa! Chuuuuaaaa!
- Mami.
- Você vai mijar nas calças.
- ✝
- Lavagem finalizada. Abertura de porta.

Olha. Eu nao lembro de ter passado por situaçao semelhante antes (mentira, ja mijei nas calças varias vezes depois dos meus 15 anos). Entao, quando a porta abriu, eu entrei e ja fui mijando, mesmo vendo que a porta ainda nao estava totalmente fechada. Nao sei finalmente o que poderia contribuir de maneira mais decisiva para o fim da minha dignidade: mijar nas calças à vista de todos ou mijar no banheiro à vista de todos. Mas fiz minha escolha e posso dizer que a vida ficou menos sombria de repente. A unica ma noticia é que eu tinha razao sobre o uso do banheiro pelos caras. O banheiro é lavado, mas o ar nao é purificado.

Quais as liçoes de hoje, amiguinhas? Evitem andar sozinhas na Guillotière (sobretudo se vocês tiverem um roxo no braço), nunca aceitem dorgas de estranhos (de toda forma, eles nao vao te oferecer se você tiver um pipiu) e sobretudo, jamais, em nenhum caso, entrem num banheiro publico que tenha sido utilizado por um homem. Eh cilada, Bino.



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Qual o problema de ser uma puta?

Li um artigo em francês que entra na série "mais atual, impossivel" e que, por sua utilidade publica, me fez querer traduzi-lo e publica-lo neste meu amado espaço. Por favor, nao analisar muito o nivel da traduçao, eu fiz o que pude. Foca no que interessa.

A verdade sobre as verdadeiras putas


Eu sou uma puta. Uma puta de puta, puta. Eles dizem isso direto. Os que leem meu blog e nao estao de acordo com o conteudo. Os que nao me amam. As mulheres que pensam que o sexo é repugnante. Os caras que querem boas meninas pra apresentar às suas maes e que pensam que, porque eu falo abertamente de sexo, eu nao gosto dos jantares de familia ou das maes.

Eles tem muitas razoes pra pensar o que eles pensam. Eu ja dormi com um monte de homem. Mais de dez. Mais de vinte. A gente continua ? Eu ja escrevi muito sobre minha vida sexual. Eu dividi historias pessoais porque eu pensei, e penso ainda, que nao somente eu escrevo bem, mas que eu escrevo uma boa histoira. Uma historia que, eu ainda estou convencida, tera um "happy ending" em alguma parte nessa porra, entre os emails injuriados e o papel que alguem colocou no carro da minha mae, estacionado numa estacao, no qual estava escrito "eu espero que voce esteja orgulhosa da puta que voce educou". 

Eu comecei a assistir a série The newsroom, de Aaron Sorkin. No começo, eu odiei o personagem de Sloan Sabbith. Essa cronista de economia, excepcionalmente atraente, loucamente inteligente e jamais desprovida de uma reposta espirituosa.

Atençao, spoiler, se você assiste à série.

Eu assisti o episodio que saiu no domingo passado. Dois momentos que prenderam mais do que tudo. Maggie pergunta à Sandra Fluke : "qual é o problema de ser uma puta ?". O segundo momento, é uma situaçao complicada na qual se encontra Sloan Sabbith. Ela sai com um cara. Ele tira fotos dela, ela ta de acordo, depois ela termina a relaçao. Ele publica as fotos na internet. O mundo inteiro vê o corpo da jovem menina. Sua carreira esta em perigo. Todo mundo fica sabendo. O rumor corre solto. Ela se senta no chao de um quarto escuro, chorando, e diz baixinho : "eu quero morrer".

Eu nunca me imaginei um dia me sentir grata à Aaron Sorkin. Por tudo. Mas eu agradeci baixinho à Aaron Sorkin.

Mais ao longo do episodio, Sloan Sabbith da de cara com seu ex, que publicou as fotos, no momento em que ele esta no meio de uma reuniao. Ela da um chute no saco dele, acerta uma direita e tira uma foto do seu nariz sangrando.

A puta ganhou. E isso, meus amigos, é magico. Porque, vejam vocês, a puta nao ganha nunca. As meninas que tiveram suas fotos publicadas na internet, nao ganham nunca. Elas perdem o emprego delas e a reputaçao. Elas sao humilhadas e forçadas a levar sua vergonha. Vergonha de seus corpos. Elas devem se desculpar por serem sexualmente ativas no meio privado. Por essas coisas que nohs fazemos na intimidade de nossos quartos que nohs nao deveriamos fazer, mas que nohs fazemos mesmo assim, porque existem nove bilhoes de habitantes nesse planeta e eles chegaram aqui de uma maneira ou de outra. Sloane Sabbith se senta no seu quarto escuro e diz : "eu quero morrer". Porque ela deixou seu namorado tirar fotos e ele as publicou. Nao foram fotos dela matando cachorrinhos, batendo em criancinhas ou estuprando pessoas idosas. Sao fotos dela. Do seu corpo. Essa coisa que vive sob suas roupas. As partes do seu corpo que sao, de certa maneira, mais ofensivas que os dedos dos seus pés. 

Depois chega Maggie com essa frase que resume o que eu me esforço dizendo ha muitos anos. "Qual é o problema de ser uma puta ?"

Fim do spoiler

Nohs temos todas medo de receber essa etiqueta. E a ironia dessa historia, é que a maior parte de nohs (e talvez eu esteja errada sobre esse ponto, mas eu estou quase certa de ter razao) fazemos essas coisas como as verdadeiras putas fazem. Nos tiramos fotos. Nos enviamos mensagens de texto safadas. Nos dormimos com nossos namorados. Nossos maridos. Nos chupamos. Nohs nos despimos. Nohs temos uma vagina. Nohs a utilisamos. Algumas entre nohs, as vezes, sentem mesmo prazer em utilisa-las. Nohs temos seios e mamilos e nadegas. Entao, com certeza, nohs deveriamos todas ter vergonha. Porque somos as unicas a fazer esse tipo de coisa. Você me entende, você, mulher do mundo inteiro ? Você é a unica a fazer o que você faz com esse cara (ou essa menina, ou pior, COM OS DOIS). E isso é tao terrivelmente ofensivo, ruim e vergonhoso. Como? Você quer saber por que ? Oh. Porque… puta ?

Me chamaram de puta outro dia, na internet, no que deve ter sido a milésima vez. Por causa de um artigo que eu escrevi sobre o emprego de barman. Como se fosse também uma injuria. Eu nunca ganhei o prêmio Pulitzer. Mas vocês sabem quem eu sou ? Uma boa pessoa. Eu sou perfeita ? Nao. Eu cometo erros ? Absolutamente. Grandes erros ? As vezes. Eu fiz coisas das quais eu me arrependo ? Sim. Eu faço coisas que eu nao me arrependo mas que, segundo alguns, eu deveria me arrepender ? Sim. Eu sou um ser humano. Eu tenho seio. E uma vagina. E a maneira com a qual eu os utiliso nao faz de mim alguém bom ou mal. Eu escrevi uma vez que se uma mulher descobrisse uma vacina contra a aids, mas no dia seguinte fotos dela nua com um vibrador viessem à tona, essa ultima parte seria a manchete dos jornais. Porque, evidentemente, os vibradores fazem mal às pessoas (piadas à parte). Evidentemente, uma mulher tendo uma relaçao sexual ofende as pessoas. Uma mulher tirando fotos dessa coisa assustadora sob suas roupas ? Falemos sério, eu nao diria que seria tao horrivel quanto uma criança com cancer, mas… na verdade, sim.

Eu agradeci silenciosamente Aaron Sorkin, nao porque ele soube sair do pensamento quadrado e abrir um debate sobre o sexismo, as mulheres e "dois pesos, duas medidas". Esse duplo padrao incrivelmente frustrante, existirah até o fim da minha vida e ainda muito tempo depois disso. Desculpa cortar seus coraçoes, senhoras. Mas eu agradeci Aaron Sorkin de ter dado à puta "aberta" o "happy ending". De ter lembrado ao mundo que a puta que se deixa flagrar fazendo coisas (que todo mundo faz) e que ninguém ousa fazer, é ainda sim, alguem bom. Que mesmo com internet, os blogs de fofoca e de "dupla moral", as putas podem ganhar sempre. E ter esses momentos onde elas atingem o saco de um cara e o faz se arrepender de ter um pênis nesse momento, da mesma forma que as mulheres se arrependem de ter uma vagina quando uma foto da dita vagina é publicada na internet. 

Eu me recuso a me desculpar de ser uma verdadeira puta e de escrever sobre esse assunto se isso puder evitar que uma menina, nesse pais, se sente num quarto escuro dizendo que ela quer morrer porque a chamaram de puta. Por lembrar ao mundo que as putas podem fazer boas açoes. Elas praticam esporte, ganham trofeus e ajudam doentes. Elas ganham causas e eleicoes. Elas amam suas familias. Elas podem ser boas amigas que trabalham voluntariamente num abrigo de animais e que enviam correios aos soldados no exterior. Elas podem dar 10$ a um sem-teto que ninguém da atençao. E elas nao fazem isso por se desculparem por serem putas. Elas o fazem porque ela sao boas pessoas. 

domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



segunda-feira, 14 de março de 2011

Ao mestre com carinho

Professor piscante: bom sinal

Como eu disse aqui, hoje eu deveria apresentar um seminario sobre o Abbé Pierre. Na verdade, nao era bem sobre o cara, mas isso nao importa. O que também nao importa é que, como a sala é numerosa e nem todas as pessoas podem apresentar os seminarios, a professora divide os temas entre dois ou três alunos e, no dia da apresentaçao, ela faz um sorteio pra escolher quem deve apresentar. Aqueles que nao foram escolhidos pra fazer a apresentaçao devem entregar um trabalho escrito sobre o tema. Dessa forma, todo mundo se prepara pra o seminario. 

A professora dessa disciplina tem a fama de ser muito exigente. Exigente = grossa. Entao, eu que ja sou medrosa sem motivo, cheguei hoje na aula rezando forte pra nao ser a escolhida. A reza deu resultado. No meu lugar, uma coitada foi à frente da turma falar sobre Abbé Pierre e cia. No final da apresentaçao, a professora respirou fundo e começou:

"Vocês precisam deixar de lado essa mania de falar no futuro. Vocês sao historiadores, nao jornalistas. Como assim 'Abbé Pierre farah isso, farah aquilo'? Ele 'fez' isso, ele 'fez' aquilo. (...) Você fala demais 'personne'. E sua problematica? Nao tem nada a ver com uma problematica! (...)  Sua introduçao esta completamente confusa, você se perdeu entre dados e numeros. E sua conclusao nao corresponde ao que você disse durante o seminario"

Ela criticou ainda a menina por ela nao ter visto um filme que fala sobre o Abbé Pierre, disse que ela nao tinha se "doado pro trabalho". E ainda reclamou pelo fato da menina ter esquecido certas datas. Minha gente, vinte minutos seguidos de critica. Quando olhei pra menina, ela tava com cara de choro. Eu quase levantei da cadeira pra ir dar um abraço nela. Soh digo uma: me livrei de ter pago um micao chorando na frente de todo mundo. Foi duro. Inclusive, ela havia comentado comigo que mandou um email pra professora pedindo algumas dicas de livros pra fazer o trabalho e a resposta da professora foi simplesmente: "você nao tem capacidade de fazer uma pesquisa bibliografica?"

Meda.

Pra minha paz, essa nao é a unica professora que da coice. Mas da outra professora eu nao reclamo, porque a disciplina dela é feminismo puro, do começo ao fim, é lindo! Mas eu nao ouso abrir minha boca. Ela vive cortando os alunos, mas de uma forma grosseira mesmo. 

Outro dia, um desavisado foi inventar de dizer o que ele pensava sobre determinado assunto que estava sendo discutido. Infelizmente, a opiniao dele nao correspondia à opiniao da professora. Entao, ela olhou pra cara dele e disse:

- E o que você sabe sobre isso?!
- Eu nao sei, eu soh acho que...
- "Acha"? Acha o que? O que você sabe sobre isso?!
- O_o
- Você por acaso leu sobre isso?
- Nao... eu...
- Entao! 

Cri cri cri. 

O mesmo aluno, antes disso, tava comendo um sanduiche dentro da sala e ela disse "quando você vai terminar seu pic nic?". 

Uma aluna tava guardando o material dela quando a professora parou a aula e disse "mademoiselle, a aula ainda nao acabou, tenha respeito". E eu, louca, quando ainda nao havia testemunhado nada disso, fui perguntar a ela se eu poderia entregar um trabalho escrito no lugar de apresenta-lo como seminario.

- ...porque eu sou estrangeira, mimimi.
- E dai? Você pode fazê-lo mesmo assim! 
- Mimimi?
- Ok.

Eu devo ter feito cocô na calcinha depois que dei as costas a ela. Tenso! A de hoje foi ela escrachando os estrangeiros que entregam trabalhos com erro de ortografia. "Vocês tem o corretor! Coloquem no corretor!" Ela te corta se você fala, se você nao fala, se você come, se você respira, se você. 

Entao, é com muito orgulho que eu anuncio que eu ganhei uma piscadinha dela! Hihi Ela tinha falado de um mestrado lindo que eu queria muito fazer ano passado sobre trabalho e gênero, mas por haver a necessidade de um intercâmbio, eu desisti da idéia (desisti da idéia = nao passei :D). Mas o mestrado vai abrir na Lyon II e nao serao somente cinco vagas. Entao, achando que eu tinha alguma chance, fui falar com ela durante o intervalo da aula. Falamos durante uns dez minutos. Ela explicou o que eu precisava fazer. 

Quando voltamos à aula, uma menina começou a apresentaçao de um seminario sobre a Barbie (pois é...) e comentou que algumas até falavam. "Tem uma Barbie que diz que blablabli e isso deixou algumas feministas furiosas". Como eu nao entendi a frase, me virei pra Lucie e perguntei baixinho o que ela havia dito. A professora percebeu, levantou da cadeira e foi ao quadro escrever pra mim o que ela tinha dito: "a matematica é muito dificil". Quando eu li o que ela escreveu, olhei pra ela e ela deu um sorriso e uma piscadinha pra mim. Um SORRISO e uma PISCADINHA. Foi muita emoçao, meu povo. Pensando agora, acho que ela ta afim de mim. No final, os professores so querem que a gente mostre esforço e interesse pelo curso - e que a gente nao coma, nao fale e nao respire. 


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Peum peum peum peum peum...

Um: primeiro, muito obrigada a tod*s aquel*s que me desejaram força, saude, paz, prosperidade e sexo selvagem nos ultimos posts. Lind*s!

Dois: Rita, eu nao faço mestrado. Esse fricote todo é somente por causa de uma graduaçaozinha. Hihihi. Espere até ver meu drama quando eu tiver no mestrado.

(Post censurado)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pondé, você conseguiu: eu me depilei!

Tudo começou quando vi esse post da Maira: e se eu nao quiser me depilar, algum problema?

E terminou quando vi uma mensagem no Twitter do @iavelar sobre o neopelucias.   

Imagino que tenha sido somente uma idéia provocadora, jogada ao acaso. Mas eu sou uma menina que leva as coisas muito a sério, e, como eu precisava ir aos correios amanha, nao resisti. 

Beijos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Chega de maças!


Gente, resolvi participar, depois de encerrado, do 4o concurso de blogueiras promovido pela Lola. Nao gosto muito da idéia de "concurso", porque isso me da a sensaçao de competição e eu sou daquelas que prefere nao jogar com medo de nao ganhar, pela pressão etc. Mas a idéia defendida pela Lola, é que os blogs sejam divulgados e que as pessoas possam se conhecer. E, como eu conheci muito blog legal através dos concursos anteriores, resolvi participar deste sem maiores frescuras. O concurso foi dividido em três partes e, caso eu entre, sera somente na terceira, mas vocês ja podem ler e votar pra primeira etapa. Entao, um, dois, três, la vai: A origem do meu feminismo.

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Estava eu lendo um livro à sombra de uma arvore quando, de repente, uma jaca caiu na minha cabeça. Aquele caso curioso provocou em mim um lampejo de auto-observação e, depois de assistir a um rápido filme que se passava pela minha cabeça sobre minha vida, me veio uma revelação extraordinária: "eu sou feminista!" - talvez o caso se torne ainda mais insolito pelo fato de que a arvore era uma macieira. Mas isso nao importa. O que importa é que minha vida mudou a partir dali. 

Ok, as coisas nao aconteceram assim. Na verdade, o processo foi menos romântico e levou mais tempo do que eu gostaria. Ironicamente, me tornei feminista graças a convivência com machistas. Afinal, leitor, sabe você o que significa crescer num dos estados mais machistas do Brasil? Pois eu vou te contar o que é. 

Meus pais nasceram em Campina Grande, interior da Paraíba e, meus avos, nasceram num interior ainda mais interior - tao interior que eu nem sei aonde fica. Nao fui um primor de inteligência, nem dispunha de um senso critico aguçado: sempre fui muito feliz com minhas Barbies, os carrinhos de bebês e as vassourinhas de brinquedo. Também aproveitei bem das "brincadeiras de menino" por ter dois irmaos. Era a única menina na minha escola que sabia fazer uma pipa ou lançar um peão sem perder um olho. Mas nossa irma nasceu e, como eu já tinha nove anos de idade, poderia me ocupar, além das tarefas domésticas, das fraldas cagadas da pequena. Questionada pela razao daquela injustiça, minha mae respondia com naturalidade e inocência: "porque você é mulher. Ou você quer que seus irmaos limpem a bunda da sua irma?" (Bom, na verdade, eu queria). "Prefiro que você lave os pratos, porque seus irmaos nao sabem fazer direito". Eh que se podia ler nos meus cromossomos algo como "Born to be dishwasher". 

Eu, como uma lady que sou, esperneava e gritava. Nao adiantava: centenas de anos de tradiçao estavam contra mim. Minha boa mae, que tinha aquele machismo cravado na pele, nem se dava conta do que estava falando quando dizia que eu deveria aprender a cozinhar porque, do contrario, no dia em que eu casasse, o marido morreria de fome. Meu irmão tinha liberdade pra dizer que ia dormir na casa da namorada. Se eu fizesse o mesmo, eu nao teria os 24 dentes na boca. Meu pai disse que ia escolher meus namorados. Minha mae dizia que falar palavrao nao ficava bem em uma mulher. Um inferno.

A vida de certas amigas igualmente me davam arrepio. Tinha aquela que fechava os livros, em plena época de vestibular, pra fazer o jantar do irmão (que ficava na sala com as pernas pro ar, gritando a fome e devolvendo o prato de comida caso este nao estivesse bom o suficiente pro seu paladar). E aquela outra que me revelou que nao iria perder a virgindade antes do casamento porque nao saberia com que cara olharia pro pai quando chegasse em casa. Ora, cara de quem deu, ué.

Anos depois, conheci o amado e resolvemos nos casar por meras questoes burocraticas (facilitar minha entrada e estadia no pais em que ele nasceu). O casamento era coisa simples (casei de jeans e All Star), mas minha avoh, temendo pela minha honra, me preveniu pra tirar fotos com o juiz, do contrario, eu ficaria mal falada, as pessoas iam pensar que eu tinha apenas me amancebado*. E contou historias de meninas do interior que, nao podendo casar como gostariam, se vestiam de noivas e tiravam fotos pra mostrar a sociedade que mereciam respeito. E nao ha nada pior pra uma mulher que a perda de seu himen sua honra. Minha prima, por exemplo, antes de casar, foi obrigada pelo meu tio a ir no ginecologista pra comprovar sua virgindade. 

*Viver como casada sem o ser

Eh natural que meus pais tenham reproduzido a educação machista que receberam da sociedade e dos meus avos. Por isso, me indago sobre o que me levou a me distanciar da cultura machista da minha família, do meu estado, do meu pais. O que faltou pra prima que cresceu comigo tornar-se feminista? Qual foi o momento que permitiu que eu tivesse esse comportamento quase fobico em relação ao machismo? Sinceramente, soh tenho uma explicação plausivel: foi a jaca. 

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Meu lado viking

Esse é um daqueles posts que vão começar num ponto e terminar noutro, afinal, minha linha de raciocinio eh desalinhada.

Hoje, enquando eu estava indo pro metrô, vi uma figura sombria andando à minha frente. Era uma menina vestida de preto, com um vestido que deveria ter sido da tataravoh dela e que era tão bizarro que soh poderia ter sido comprado numa loja de fantasias. Deu um noh na minha cabeça ver uma camponesa do seculo XVIII pegando metrô. Essa é uma das coisas das quais eu adoro aqui. O fato de poder ser camponesa do século XVIII e pegar metrô? Não, querido leitor, é o fato de que você poder andar como quiser sem que ninguém se importe/olhe/aponte/ria. Impagavel.

Isso me fez refletir um pouco sobre a forma com a qual eu me visto na França. Em João Pessoa, nada passa despercebido aos olhos dos outros. Nada. Aqui, eu tenho mais liberdade pra ser quem eu quiser porque:

a) na França, ninguém me conhece;
b) Camilo não cobra que eu funcione no modo princesa;
c) as pessoas aqui não fazem alarde sobre a forma com a qual você se veste;

Por esses três motivos, eu me peguei indo pra padaria outro dia com o cabelo do jeitinho que ele estava quando acordei de manhã. E alias, vestida numas calças que eu uso pra dormir no inverno que, além de tudo, estavam manchadas. E, na verdade, noto que minha vaidade em geral tem arrefecido e isso, ao contrario do que possa parecer pra maioria, é muito bom.

Acho que eu tenho uma sorte muito grande de ter Camilo como namorado. Porque, sinceramente, não é todo namorado que briga com você por você ter se depilado cedo demais. "Deixa esses pelos crescerem! Cadê teu feminismo?", ele pergunta. E ninguém aqui pensa que sinônimo de feminismo é cultivar pêlo. Mas ninguém pode negar que gilete/cera é uma tortura, e é uma tortura pela qual os homens não passam - não esqueci de vocês, nadadores, beijos! - e que a gente passa... por que mesmo?

No meu caso, se eu não devo satisfação aos desconhecidos do metrô, se eu gostaria de aumentar o espaço entre uma depilação e outra e se meu proprio namorado ta pouco se fudendo pro caso, por que eu continuo me torturando? Resposta: eu continuo me torturando por causa do segundo tipo de pessoas que leem esse blog. O primeiro tipo vai pensar "é verdade, depilação, vaidade em excesso, pressão sobre a mulher estar sempre bela é uma merda". O segundo tipo vai dizer "sebosa. Casou e agora ficou desleixada. Pobre Camilo".

Graças aos anjos de Jesus Cristinho, tudo nessa vida tudo é questão de equilibrio.

Não, você não vai ver minhas axilas nesse estado. Jamais. Eu soh não uso brincos quando vou dormir. Eu uso creme hidratante todo dia. E, se pudesse, continuaria indo pro cabeleireiro a cada três meses, como fazia no Brasil. Por outro lado, não perco o sono quando vejo minhas celulites e estrias. E tampouco faço dietas agressivas pro meu corpo pra deixa-lo mais Gisele. Não suporto maquiagem (outra droga que Camilo me encorajou a largar de vez). Não uso salto. E, melhor de tudo: sei que eu poderia ser diferente em muitos sentidos em relação ao padrão de beleza e de comportamento imposto pras mulheres porque tenho o ambiente ideal pra trabalhar isso. Admito que é triste que eu não tenha me dado conta disso tudo sozinha e que precisei de ter um homem compreensivo ao meu lado pra me fazer enxergar estas coisas. Mas eu não lamento, eu comemoro.

Comemoro também o fato de eu poder, com ele, chamar palavrão pelos cotovelos e não escutar nenhuma frase do tipo "isso não é coisa pra mulher", sentença que me atinge ainda mais fundo quando é falada por mulheres, porque vejo isso como um tiro no pé. Uma francesa outro dia disse que eu falava demais "putain", mas nunca a vi censurar o namorado que faz a mesma coisa, e olha que ja morei com os dois. E ha umas semanas, foi uma brasileira no Orkut que disse que meu blog era de mal gosto, que tinha palavrão. Muito triste. Eu entendo que minha avoh pense parecido, mas meninas de 30 aninhos? Enfim, infelizmente, pega mal pra mulher ser agressiva. E no quesito comportamento, eu tou muito mais dentro daquele campo tido pelo senso comum como sendo o campo masculino: beber cerveja, sentar de perna aberta, falar palavrão, arrotar. Sou praticamente Hagar, o Horrivel! Grrrau!

Ok, voltando...

Seja como for, falta muito pra que eu me sinta realmente livre com meu corpo, minhas roupas e meu comportamento. O objetivo não é virar uma mendiga, é somente alcançar um nivel de esclarecimento sobre as coisas que me impeça de sofrer por causa da minha (falta de) feminilidade. Como também não julgar quem ainda não conseguiu enxergar essas coisas. Afinal, eu ainda não cheguei la e não quero ser julgada.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Parabéns pros blogs

Hoje meu blog faz um ano. Não que eu veja alguma coisa de especial nessa informação, mas ao menos vi esse fato como uma oportunidade pra falar sobre algo do qual eu gosto muito: de blog.

O blog Europrosa deu um selo pro Caso me Esqueçam. Eu não sei bem o que isso significa, mas sei que é uma coisa boa, um tipo de reconhecimento pelo blog. A regra diz que a imagem deve ser afixada no meu blog, mas como eu não sei fazer isso, fica por aqui mesmo, como post. Também tenho que citar quinze blogs que eu gosto (com certeza a melhor parte desse selo). Mas vou além, vou dizer resumidamente porque eu gosto dos blogs indicados, assim talvez vocês se sintam mais motivados a conhecê-los.

Ashen Lady's Blog - Blog que conheci, por acaso, essa semana. A autora faz umas reflexões sobre o cotidiano, a forma com a qual as pessoas se relacionam. A escrita é simples e fluida.

Café Velho - Eh um dos unicos blogs que fala de uma forma realmente séria sobre politica. Por coincidência ou não, ela mora em Brasilia e tem mesmo muito o que falar.

C'est pas vrai - Blog da Bel, brasileira que mora em Paris, que fala sobre tudo e sobre nada de uma forma que eu adoro: cheia de humor e ironias. C'est vrai!

Dentro do Coletivo - Apesar de ser suspeita pra falar, por se tratar de um blog do meu personal guru musical, é impossivel deixar de elogiar esse blog. Excelente quando faz criticas de albuns ou quando escreve contos. Completo.

Documentarios Verdade - Blog onde estão disponiveis documentarios obrigatorios pra quem vive nesse planeta.

Escreva, Lola, escreva - Um dos blogs mais completos pra mim: feminista bem-humorada que adora filmes. Dez feministas entre dez tem o blog dela no seu bloghall.

Foi feito pra isso - Uma boa descoberta dos ultimos tempos. Eh sempre bom ler alguém com senso de justiça e que tem talento pra escrever.

La Dolce Vita - A-do-ro! Blog sensacional que fala sobre arte (filmes, quadrinhos, desenhos animados, atores etc). Vai do classico ao tosco. Além de ter o dominio sobre o assunto que escreve, o Miguel é um gentleman de humor fino. Adoro as impressões dele.

Nunca disse que faria sentido - Também outra descoberta recente. Blog de uma criatura que fala coisas aleatorias sobre sua vida, mas que consegue prender totalmente minha atenção.

Pergunte ao Pixel - Blog da Tina, mãe da Nina, e suas aventuras. Ponto forte: um humor sarcastico. Impossivel ler um post soh.

Porte Doree - Blog da Amanda, brasileira residente em Paris. Leitura obrigatoria pra todos aqueles que decidem morar na França e também praqueles que querem conhecer a verdadeira cara da terra que o Sarkozy governa. Escrita simples pra temas complexos. E o que eu mais adoro: no clichê. Ouais!

São Paulo - Paris - Dakar - Blog da Aline que mostra de uma forma superinteressante as curiosidades no day by day nessas três capitais.

Viva Mulher - Escrito por uma jornalista feminista, me deprime as vezes por certas matérias e artigos analisados sobre a vida de mulher. Eh, a realidade deprime, mas o blog é muito bem escrito.

Não foram quinze, apesar de eu ter outros blogs como favoritos. Escolhi esses por serem menos pessoais. Espero que algum agrade a vocês. Ah, a Mirelle Siqueira também, gentilmente, me indicou pro selo. Muito obrigada, meninas!

Agora, hora de soprar a velinha!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sobre pão, rosas e pessoas

Camilo anda ha meses insatisfeito com os chefes. Ano passado, quando ele ainda era somente estagiario na empresa, ele ja vinha enfrentando dificuldades com os malas de lah. Um dos socios da empresa chegou a ser meio que expulso dela, pois era uma cretino de marca maior. Mas ainda restaram todos os outros. Eh o louco que grita, é o cara que é cinico, é o outro mal educado e assim por diante. Como eu trabalhei de faxineira na empresa, sei bem do que ele fala. O chefão, um tal de Olivier, aparecia na empresa de vez em quando. Eu, com minha pobre vassoura na mão, nunca escutei uma resposta dele ao meu bom dia. Tipo assim, nunca. Espero que vocês nunca tenham a chance de comprovar isso, mas quando seu trabalho não é bem assim, glamouroso, você corre o risco de desaparecer. Daih, um belo dia, acho que alguém contou pro senhor Olivier que aquela otaria que ele sempre ignorou é a esposa de um dos engenheiros da empresa. Então, ele veio trocar duas frases comigo na hora do almoço. Deve ter sido dificil. Engraçado que esse episodio se passou bem na época em que assisti Pão e Rosas (2000). O filme gira em torno de alguns casos da vida de uma faxineira mexicana que foi morar nos Estados Unidos. Opa! Faxineira? Estrangeira? Rolou uma identificação.

Nesse exato segundo, Camilo tah no Senegal, provavelmente reunido com alguns homens engravatados discutindo sobre projetos de carbono a serem lançados na Africa. Ele me mandou um email ontem, meio aflito, contando o quanto era sufocante estar com os dois chefes. Antes de embarcar, ele ligou pra mim e disse que um dos chefes tava falando sobre a esposa dele: "Bla bla bla... mas é bom mesmo que ela faça a feira, porque eu passo três horas pra achar um produto, fico perdido. Mulher não, mulher é mais cuidadosa". Pois é, meu bom homem, é porque além de estarmos biologicamente preparadas pra gerar um ser humano, nohs mulheres também trazemos conosco o gene da feira.

E Camilo foi totalmente verdadeiro quando me disse, semana passada, que tudo depende das pessoas com as quais nos rodeamos. O trabalho é chato, mas o chefe é legal? Passa. A disciplina na faculdade é interessante, mas o professor é um cretino? Não passa. Não dah, pô. E ontem eu fui pra mais uma entrevista de emprego da qual eu gostei muito. Não soh porque era pra cuidar somente de um bebê, mas também porque o perfil dos pais me agradou muito. "Quero que você ensine coisas ao meu filho, ele é muito curioso. E nada de TV. E nada de passeios no shopping". E, quando a mãe soube que eu morava numa casa, ela perguntou se eu tinha jardim. "Eu tenho um jardim. E a gente vai plantar tomate nele". E ela sorriu. E agorinha, quando esse post ainda soh estava na minha cabeça, minha ex-patroa me ligou e disse que uma mulher havia ligado pra ela ontem perguntando pelas minhas referências, se eu era confiavel. E daih minha patroa disse que sim. E explicou que eu era séria e responsavel e meu sorriso do outro lado foi enorme e o rubor foi violento. Merci! Merci! E ela disse "mas você fez um trabalho excelente, Luciana". E eu nunca tinha comentado aqui o quanto essa mulher foi importante na minha adaptação na França e o quanto me senti bem trabalhando pra ela. E ja faz uma semana que cogito a possibilidade de voltar e trabalhar uma parte da semana como baba e a outra parte como faxineira. Porque quando a gente tah com as pessoas certas, passa.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A culpa é do sistema, mano

Nas terças, eu trabalho na casa de mme Goujat. Nas quintas, na casa de mme Forfait. O que essas mulheres tem em comum, alem das suas faxineiras, é que elas acabaram de ter filhos. Goujat teve gêmeas, suas primeiras filhas. Forfait, teve seu terceiro filho (os outros dois tem quatro e dois anos apenas).

Como tou ha quase três meses trabalhando semanalmente na casa delas, é impossivel que o modo de vida de cada uma nao me provoque uma reflexao sobre o fato de ser mae. De ser mae e mulher. De ser mae, mulher e casada. De ser mae, mulher, casada e dona de casa. Tudo ao mesmo tempo e em tempo integral.

Mme Forfait conversa com seus dois pequenos como se eles fossem adultos. Eu gosto muito dela, gostei desde o primeiro dia. Acho que ela tem uma cabeça aberta, é total relax e conversa comigo sem me julgar, sem fazer caras e bocas. Na ultima faxina, o bebê dela chorou muito, mamou e dormiu. E dormiu justamente no quarto em que eu deveria fazer faxina com o aspirador. Timidamente, perguntei à mae se eu poderia ligar mesmo assim o trambolho. Ela disse sem pestanejar: "sim, ele tem que se acostumar". Detalhe, o pirralho tem um mês de vida. Quando liguei o troço, o guri deu um pulo no berço tamanho foi o susto, coitado! Quando ela tem que sair de casa, nao conta historia: mesmo com o inverno chegando, ela mete o recem-nascido na bolsa-canguru (sei la como se chama aquela porra) e vai embora com ele. A casa, pro meu desespero, é repleta de brinquedo, de lapis, de papel colorido, quebra-cabeça, bola, casinha. Tem até uma pia e um aspirador de po de brinquedo. Acho o maximo ela nao se limitar aos "brinquedos de homem". Ah, e nenhuma televisao à vista!

Mme Goujat é o extremo oposto. A palavra que define bem ela é "neurotica". Creio fortemente que o nome dela deveria estar como sinônimo pra esse adjetivo no dicionario. Ela tem uma risada nervosa e mania de limpeza. Quando tava gravida, passava o dia todo feito um parasita dentro de casa. A ordem é a de sempre: mulher embucha, marido trabalha. Agora que ela pariu, esta pior: ela nao sai de casa de forma alguma. Eu vou ao correio pra ela, vou à lavanderia, vou pegar as suas cartas "porque os bebês nao podem sair! Elas nao podem sair! A gripe! O frio! O inverno, Luciana!" E agora a coitada tah com uma cara cada vez mais de louca. Quando as bebês choram ao mesmo tempo, eu a vejo correr pra todo lado e dizer "que maratona!". Ela me mandou, excepcionalmente, na ultima faxina, passar as camisas do marido porque "nao aguento mais! Ja disse ao meu marido que ele nao vai usar camisa de botao no fim de semana!" Eh, minha senhora, coloque o seu marido pra passar as camisas dele e ele vai entender que seria melhor evitar as camisas dificeis de se passar.

E, na ultima faxina, mme Louca me perguntou se eu conhecia alguém que tem bebê. Pensei em mme Forfait e disse que sim. Entao, ela veio a mim com uma sacola repleta de roupas e brinquedos pra bebês e disse: "ta tudo novo, tou dando porque as coisas sao laranja e o tema do quarto das meninas é rosa" (ui). E os brinquedos? "Ah, eles fazem barulho e criança nao gosta de brinquedo que faz barulho" (ai).

Comentario 1: que feio! Se desfazer de presentes alheios!
Comentario 2: vocês também acham que se as filhas dela usassem a cor laranja elas iriam provocar o fim do mundo?
Comentario 3: ao oito de dezembro de 2009 foi decretado: criança nao gosta de brinquedo que faz barulho.

Sinceramente, até agora, o estilo de educaçao que eu venho apreciando é o pânico do aspirador. Depois de me dizer que criança nao gosta de brinquedo que parece brinquedo, Goujat me mostrou uma casinha feita de feltro, totalmente bizarra e sem graça e disse que era aquilo que era legal. Espero que ela nao seja o tipo da mae que da roupa de presente no Natal. Cruzes. E quanto ao marido, o Y da questao, eu ainda tou preferindo o meu.

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E por falar em maternidade, divulgo aqui o Terceiro Concurso de Blogueiras. Otima oportunidade pra conhecer novos blogs. No meu caso, foi uma otima oportunidade pra repensar se eu quero mesmo ter filhos...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Chega de saudade!

Eu odeio falar aqui no blog sobre meus momentos de tristeza. Evito mesmo. Fiz um blog soh pra isso e, quando eu tou afim de expor minhas angustias, eu exponho no outro... (na verdade, eu exponho", ja que o blog é fechado). Ah, mas eu preciso falar desses dias. Aqui.

Ha uns dias, eu recebi uma otima noticia que me deixou triste: o fato dos meus amigos de universidade terem passado no mestrado. Isso me deixou feliz, claro! Mas ao mesmo tempo, essa situação logo me questionou sobre o que EU tou fazendo da vida. Bom, eu? Eu faço faxina. O fato de eu ter estudado com esse pessoal faz com que eu pense que eu fiquei "pra tras", ja que eu não tou acompanhando a maré junto a eles. Aih, tome tristeza!

Somado a isso, veio a saudade. Nem sei falar sobre saudade. Nem sei dizer como começa, mas termina sempre em tristeza. E o sentimento de abandono é muito forte. Então, adorei quando Amanda me deu uma sacudida nos ombros dizendo que quem abandonou os amigos fui eu. Bom, isso não melhora minha tristeza, mas ao menos livra meus pobres amigos de serem responsaveis pelo abandono. E por falar nisso, mais um cravo: a despedida de Simone.

Ha muitos meses eu falei de Simone aqui. A amizade soh tava começando, mas eu ja sentia que ia ficar muito amiga dele e acertei. Simone é foda. Simplesmente. O que ele conseguiu despertar na minha pessoa beira mesmo o amor. Quando eu falava, Simone era soh ouvidos. E quando Simone abria a boca, eu soh conseguia escutar. Eu jamais, jamais conheci alguém assim e é facil saber porque todo mundo aqui na França gosta dele. Falar dele aqui soh vai me deixar em crise, porque eu nem mesmo conseguirei descrever a figura imensa que ele é. Mas vale a pena registrar que eu tive por quatro meses um superamigo que tornou esses meses na França totalmente felizes. Mas Simone teve que voltar pra Argentina. Ele vai ser pai.

E a vida continua...

Mas, pra resolver aquilo que pode ser resolvido: fui pesquisar meu mestrado. Pensei em trabalhar com feminismo, mas não consegui ir além disso. Assim, sem imaginação, fica dificil bolar um projeto. Mas dizem que vouloir c'est pouvoir... Por enquanto, a possibilidade de um mestrado, ainda que distante, me deixa mais tranquila. E aproveito pra pedir às leitoras brasileiras que estão fazendo mestrado na França que me contem um pouco como foi o processo pra chegar ao mestrado: equivalência de diploma, tema, dificuldades iniciais (pré-curso). Por favor, uma luz! E prometo que os proximos posts vão refletir uma Luci menos desconsolada. Mas por enquanto...

Dois minutos depois, ele tava no ônibus e eu tava aos prantos.
Chega de saudade!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ai, se sêsse...

Hoje foi o segundo e ultimo dia de palestra da Prefeitura. Se ontem eu achei que tinha visto muito preconceito, é porque não esperei pra ver a sequência cômica de hoje.

Antes de tudo, lembrei que M. disse ontem que ele pensava em ir pra Strasbourg (cidade colada com a Alemanha) porque ele achava que la tinha menos desse povo. Ta bom, meu filho. Strasbourg é o recanto perdido dos ultimos franceses puros deste pais. Hoje a sala de aula tinha menos arabes. A maioria era de um outro pais que ficava no sul de sei la onde (veja como eu presto atençao nas informações). Comentario de M.: "hoje tem menos dessa porra desse povo!". Com todas essas letras. Gentil.

Mas M. não teve o privilegio de ser a unica figura intolerante por ali. A palestra de hoje girava em torno da historia da França e dos direitos dos cidadãos. Falava bastante de 1789 e do quanto esse povo (dessas vez, "esse povo" são os franceses) repudia as diferenças e trata seus filhos e seus imigrantes como iguais. Eu fiquei emocionada. No final da palestra, a mulé passou um questionario pra gente com questões do tipo:

- A mulher tem os mesmos direitos que o homem na França? ( ) sim ( ) não
- Um homem pode se casar com outra mulher mesmo estando casado? ( ) sim ( ) não
- O chefe da familia é o homem? ( ) sim ( ) não
- As mulheres devem pedir autorização do marido para utilizar metodos anticoncepcionais? ( ) sim ( ) não

Ao final, fomos corrigir as questões. Eu sabia que muita gente ali achava que o homem é o rei do lar, mas eu não imaginava que eles iam gritar isso dentro da sala pra todo mundo ouvir. Em relação à ultima questão, um dos caras respondeu "eu não concordo!". E a palestrante rebateu "é, mas não funciona assim".

A mulher que tava sentada na minha frente, devia tah se achando A pensadora liberal, racional, evoluida, porque, toda vez que a palestrante dizia que, por exemplo, a mulher na França tinha direito de escolher com quem queria se casar, ela dizia "ah, mas isso é obvio, em todo pais é assim". Eu ja tava ficando puta! Porque, ô, criatura, ou tu é muito ingênua/ignorante pra achar que isso é muito obvio e que a realidade da mulher em todos paises é assim (livre-arbitrio) ou tu ta dando uma de doida. Finalmente a palestrante respondeu à essa também dizendo que, não, coração, não é assim em todos os paises. Ai, se sêsse...

domingo, 1 de novembro de 2009

Garotos nunca dizem não

Pequenos adendos em forma de post. EU PRECISO!

Os comentarios do post passado feitos pelos homens são a prova concreta de que vocês, definitivamente, não entendem o que é ser uma mulher. Digo, não entendem o quanto é dificil ser uma mulher. Fazem idéia, mas não entendem. Tem o comentario de Mythus onde ele diz que ja sofreu cantadas ("sofreu" é expressão minha, ja que homem não sofre cantada, ele recebe) de mulheres nas ruas e ficou constrangido. Pra mim, isso é novidade. Acredito nisso, mas eu duvido muito que algum desses comentarios tenham deixado você "amedrontado" ou "emputecido", tipo assim, como acontece com a gente.

Quanto aos comentarios de Luis, não, caro amigo, nossa reação não foi desproporcional. Desproporcional foi a reação de centenas de estudantes de uma universidade ao verem uma menina usando uma minissaia.

E quanto ao comentario de Ailton... Ufa! Ainda bem que você veio nos iluminar com sua opinião. "Luis tem razão mesmo. Queiram ou não". Vou repetir: queiram-ou-não. Ponto. Afinal, ninguém melhor do que um homem pra entender a realidade de uma mulher num pais latino-americano, altamente machista/moralista. As mulheres não devem sofrer nenhum tipo de preconceito no meio da rua. Mas (e o "mas" da discordia aparece novamente!) se ela usa uma roupa provocativa, ela estah pedindo pra ser abordada. Eh como usar uma tatuagem. Ninguém usa uma tatuagem pra se enfeitar. As pessoas usam tatuagens porque gostam de sofrer preconceito, porque gostam de serem olhadas de viés. A verdade é essa. Queiram ou não.

Nos meus pobres 24 anos de vida, soh conheci dois homens feministas. Não por acaso, eles foram meus namorados. Camilo Marti e Fabio Viana. Não por acaso, eu me apaixonei perdidamente pelos dois porque eles nunca, JAMAIS me disseram o que eu podia e não podia fazer por ser mulher. Fabio nunca discutiu o tamanho da minha roupa, Camilo me incentivou a casar (e casei) de decote (isso, pra ficar soh no topico "vestimenta"). O tipo de homem que diz que é liberal mas castra a namorada pra mim é um bosta. Eh como aquele povo que diz que não tem preconceito com gay, mas se arrepia de nojo quando tem que apertar a mão de um. Pior que isso é o "não tenho preconceito, desde que fique longe de mim". Claro. Não sou machista, mas namorada minha anda na linha. Que linha mermo?

Pra finalizar, a pergunta que Mythus me fez post passado (espero que tenha respondido):

Qual a reação que a senhorita gostaria de provocar ou ver naqueles que se deslumbrarem contigo?

Sendo bem direta: quando quero impressionar alguém, seja um homem, seja uma mulher, eu prefiro usar a cabeça a usar minhas coxas. Mas se eu fico sabendo que alguém se impressionou com alguma parte do meu corpo, definitivamente, isso não vai tirar meu sono. Otimo! A questão não é absolutamente o que as pessoas possam sentir por mim, mas a forma delas externarem isso. Eu não me importo se eu provoco masturbações, pesadelos, simpatia ou sorrisos falsos. Eu não me importo. O que eu acho grosseiro são as reações. Não preciso ninguém babando em cima dos meus peitos, nem pegando na minha bunda como se eu estivesse dormente. Não quero ninguém me chamando de puta ou soltando gracinhas pelo decote, pela minissaia, por mais que eu esteja "provocativa" ou "chamando a atenção", seja la o que for isso. Finalmente, o problema não esta na minha provocação, esta na reação alheia. Quer a gente queira, quer não. Infelizmente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

00,01%: eu gostchio!

Eh quase meia-noite, estou caindo de sono e, dentro de poucas horas, terei que estar pronta pra aproveitar mais um maravilhoso dia de faxina. No entanto, um assunto pede urgência.

Luluis, meu querido, desculpe, mas seu comentario no meu post passado foi extremamente infeliz (pra usar um termo decente). Vamos discuti-lo, amiguinhos?

"99,99% das meninas odeiam esses 'psiu' e 'vem cah', isso é óbvio, mas se uma menina anda quase nua na rua (oq não é o caso de vcs, moças de bom gosto) é pq tá querendo se exibir. E mesmo q ela seja boboca o suficiente pra não ter essa intenção, a galera vai cair em cima, aí não tem pra onde. Se elas não têm bom-senso, não vão ser os caras q vão ter".

Obviamente que um paragrafo machista como esse renderia um livro feminista. Como eu sou escritora de blogs fajutos, não de livros exemplares, deixo aqui apenas minha indignação. Não contra sua pessoa, cuja figura me é valiosissima! Mas ha de se lamentar o deslize, oh, se ha!

Luis, eu gosto dos meus peitos. E acho que não sou a unica. Entendesse? Eu gosto dos meus peitos e gosto dos meus olhos. Pros peitos, eu usava decote, porque gostava de realça-los. Pros olhos, eu usava rimel, pelo mesmo motivo: pra realça-los. Quando percebi que era mais perigoso usar decote do que rimel, parei de usar decote. Me pergunto: é justo?

Leitura obrigatoria:
Sindrome
Lola

Meninas, o que vocês acham?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Homens são diferentes, machos, iguais

Uma coisa que vai ser obvia pros brasileiros que moram na França (ou na Europa, em geral), mas que pode ser uma novidade pros amigos brasileiros: a França é cheia de arabe. Cheia, cheinha. Ja li que é o pais com o maior numero de arabes na Europa, cerca de 10% da população francesa. No começo da minha estadia na França, lembro que eu ficava super impressionada (SUPER!) quando uma mulher passava por mim com um véu. Quando vi uma mulher usando uma burca, quase que caio pra tras! O choque visual foi extraordinario. Foi alguma coisa do tipo "nossa, elas realmente usam isso". Eh, Luciana, não foi Jade quem inventou a burca.

Mas antes de continuar o post, tenho que admitir minha completa e vergonhosa ignorância acerca dos costumes arabes. Não ha Wikipedia que baste. Morro de vontade de conversar com uma arabe, mas tenho receio de cair nas perguntas-clichê que seriam totalmente voltadas pro bem estar dela dentro de casa, pra religião e pro machismo. Por mais que se diga que algumas mulheres gostam de usar o véu, e não o fazem soh por questões religiosas, eu acho que sempre olharei pra elas com um pouco de pena*. Mas o que tem me incomodado mesmo são os homens arabes. Alguns, obviamente.

Eu percebi, e comentei com Camilo, que todas as vezes em que fui chateada na rua por homens, foi pelos arabes. Sério, todas as vezes. Eh logico que esse post tem tudo pra ser interpretado como um post de uma pessoa preconceituosa e eu não vou ser tão simploria em me defender repetindo o discurso do povo que se julga desprovido de preconceito do tipo: minha vizinha é arabe e meu tataravo também e eu estudo com uma ruma de arabe, logo, não posso ser uma pessoa preconceituosa. Sinto muito. O que eu tenho que admitir é que eu não me sinto bem entre os arabes jovens. Se isso é preconceito, eu aceito o dedo em riste, mas a verdade é essa: eu não me sinto bem entre arabes jovens do sexo masculino. E é bem especifico, assim mesmo!

Os arabes (sempre lembrando que estou falando dos "arabes jovens do sexo masculino") andam sempre juntos, com seus tênis brancos, seus mp3 às alturas e as calças esportivas com elasticos nos tornozelos. Eh facil reconhecer. O meu mal estar e insegurança chegaram depois de sucessivos acontecimentos infelizes entre mim e os AJSM.

Uma vez, eu tava andando de bicicleta com Camilo. Vocês sabem o quanto eu sou perigosa sob duas rodas, não sabem? Pois, nesse dia, resolvi atravessar justamente o caminho de um AJSM que também vinha de bicicleta. Quando notei o cara, freei à tempo, mas isso não impediu que ele, ao passar por mim, me xingasse. Ele GRITOU na minha cara. Perguntei a Camilo o que ele tinha dito e Camilo ficou calado. Perguntei de novo e ele disse que foi qualquer coisa sobre minha irmã (?). Camilo queria me poupar da raiva.

Ai vocês pensam que eu tou sendo dramatica e eu digo que não. No Brasil, eu ja fui abusada na rua diversas vezes, não gosto disso, mas duvido que alguém diria que eu tenho preconceito com brasileiro, não é mesmo? O problema é que, do mesmo jeito que eu não gosto de passar perto de grupos de homens brasileiros (aih, a idade não importa), eu também me sinto incomodada com os AJSM. Se isso é ter preonceito, então tenho preconceitos com brasileiros e AJSM.

Fora as cinco ou seis vezes em que tive a atenção chamada por algum grupo de AJSM ("vem cah", "psiu" e coisas do tipo), vou citar outro exemplo. Uma vez eu tava com Camilo, tinhamos acabado de comer um Kebab (de Kebab eu gosto...) e estavamos sentados numa praça. Tava cheio de AJSM em volta e eu tava atenta à movimentação deles. Noto que um vem se aproximando da gente, olho pra ele, ele olha pra mim e, ao passar pela gente, me diz: "salope!" Salope significa nada mais, nada menos, do que "vadia". Velho, eu fiquei paralisada. Perguntei a Camilo se ele tinha escutado, se aquilo tinha mesmo sido comigo e a gente viu que sim! O cara olhou nos meus olhos e me chamou de puta! Assim, de graça.

E ha umas duas semanas, eu tava num restaurante arabe (num bairro arabe) com Camilo e o pessoal do trabalho dele. Era horario de almoço e, como eu ja tinha terminado o meu e precisava voltar ao trabalho, me despedi dos que ficaram na mesa e sai do restaurante. Dei dois passos fora e um AJSM passa por mim e me da alguma cantada altamente sebosa a julgar pelo tom de voz dele e a forma que ele me olhou. Eca, é aquilo que eu chamo de sexo oral! Fiquei tão puta que arremedei o que ele falou fazendo "nhem nhem nhem" com a lingua pra fora. E passei. Ai ele disse algo do tipo "ah, você não é tal coisa não?" mas eu ignorei. Qual foi minha supresa quando, ao me virar pra tentar desamarrar minha bicicleta, vi que o cara tinha parado e tava me olhando. Ai eu, MAIS PUTA AINDA, olhei pra ele e disse "o que é?". Na hora ele arregalou os olhos, acho que ele não esperava que eu fosse confronta-lo, mas eu repeti "qu'est ce qu'il y a?" umas três vezes olhando pra ele e depois fui embora. O otario soh ficou repetindo meu qu'est ce qu'il y a? Cadê a macheza de dez segundos atras?

Saindo um pouco do tema arabe, ja que isso não é ação soh deles... Acho foda quando sou tratada dessa forma. A Lola morre de falar sobre isso e a gente morre de concordar, mas sempre vai ter cara que acha que essa é uma pratica supernormal, que mulher foi feita pra isso mesmo: pra ser humilhada na rua, abordada, comida com os olhos (quando não pela propria ação). E a gente sempre acanhada. Depois que percebi que boa parte desses otarios soh faz isso porque sabe que a gente não tem coragem de enfrenta-los, é que comecei a fazer isso. Claro que eu não aconselho ninguém a peitar um cara numa rua esquisita. Mas, por exemplo, coisas saudaveis: toda vez que eu voltava da casa do meu ex-namorado, de noite, pegava um ônibus bem vazio com um babaca que sentava la na frente, se virava e ficava me encarado. Tipo assim, colocava o cotovelo no encosto da propria cadeira e ficava apreciando minha estonteante beleza loura. No dia em que eu cansei de me acanhar e mostrei o tamanho do meu dedo a ele, ele soh olhou mais uma vez e parou.

E agora, a moral da historia: nenhuma. Apesar de ter falado durante boa parte do post sobre minha indignação com certos arabes, essas cantadas baratas são coisa universal e acho que, aonde quer que eu vah, vou escutar piada babaca. Afinal, tem alguma mulher que esta me lendo nesse momento que NUNCA teve que escutar piadinha de merda? Seja de AJSM, seja GHRE, seja de BDSZ, KGFV, WXSZJHI... e a puta que pariu?

Como eu imaginei.

*Update (19 de maio de 2010): apesar de nao fazer muito tempo que escrevi isso, me surpreendi com essa minha "pena" em relacao as mulheres que usam veu e sao submetidas a outras formas de (do que eu julgo ser) opressao. Eh facil criticar o veu, mas a gente esquece que, desse lado do mundo, as mulheres sao tao oprimidas quanto, cotidianamente, atraves de pequenos atos que ja foram absorvidos por nossa cultura machista e a gente nem se dah conta! Nao retiro o que eu disse, retifico: tenho pena das mulheres desse mundo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eu nunca digo nunca?

Ao andar pelos arquivos do supremo blog Sindrome de Estocolmo, achei esse post e fiquei super empolgada pra fazer igual. Eh a segunda vez que vejo esse tipo de lista em que você diz quais são as coisas que você nunca vai fazer antes de morrer. Eu sou completamente viciada em questionarios ou listas desse tipo. Mesmo que seja uma ficha médica com meus dados pessoais a ser preenchida pra dar entrada no hospital, tah valendo! Se Camilo me visse escrevendo esse post, ele iria rir. Eu odeio e adoro coisas com grande convicção. O problema é que minhas grandes convicções duram trinta segundos.

- ODEIO cebola.
- Prova essa aqui.
- Não!
- Soh um pouco...
- (nhac)
- E ai?
- ADOREI! Meu deus, eu adoro cebola! :D

Tipo isso. Portanto, que fique bem claro que essa é a lista do 13 de outubro de 2009. Então, vamos à mais uma inutilidade publica:

O que eu acho que não vou fazer antes de morrer:

- deixar de ser dramatica;
- parar de gostar de escrever (em blogs ou diarios ou emails ou cartas);
- deixar a Historia de lado;
- parar de ser chorona;
- gostar de comédia romântica;
- abrandar a vontade de ser mãe;
- ser paciente;
- parar de roer unha;
- ter orgulho da minha irmã;
- deixar de me emocionar ao pensar em Camilo;
- ficar tranquila diante de um exemplo de machismo;
- fazer bronzeamento artificial;
- deixar de beber cerveja;
- ir aos EUA à turismo;
- ouvir Zeca Baleiro;
- entender Drummond;
- gostar de biscoito recheado de morango;
- deixar de comer chocolate;
- poupar palavrões, seja qual for o motivo;
- não ter medo de espirito;
- deixar de me questionar sobre minha auto-estima;
- deixar de amar Fabio;
- ser fresca;
- parar de achar que os Beatles são os melhores e sempre serão;
- gostar de flores;
- achar que religião e Estado combinam;
- confundir cavalheirismo brega com educação;
- deixar de falar de sexo escancaradamente;
- gostar mais das amizades femininas que das masculinas;
- usar aliança;
- deixar de odiar e adorar coisas com grande convicção;

Talvez

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