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terça-feira, 26 de março de 2013

Azar e a esperança equilibrista

O caminho da luz que eu e Camilo temos que seguir, também chamado divorcio, é um processo longo e doloroso. Mais por questoes de logistica que por questoes emocionais. Ontem foi o dia. Iamos fechar nossa conta conjunta e fazer um passeio pelo tribunal pra dar entrada numa ajuda do governo para o pagamento do adevogado. Estamos de comum acordo pela separaçao. Inclusive, nunca estivemos tao de acordo em alguma coisa, no entanto, estar de acordo nos custa 1,500 €. Acho que a tabela dos nao acordados deve ser calculada em relaçao a sua atitude diante do ex:

Testa franzida e olhos semicerrados: 20 €
Olhar raivoso: 30 €
Grito:
(60 - 80 decibéis): 40 €
(80 - 100 decibéis): 60 €
(100 - 150 decibéis): 80 €
(150 - 200 decibéis): no es posible.
"O Rafa vai ficar comigo": 200 €
"Nao, o Rafa fica é comigo": 300 €
"Quero pensao pro nosso gato": 800 €

Mas antes de saber se fazer carinho no ex acarretaria num desconto, imprimi todos os papeis que nosso advogado nos aconselhou, peguei minha bicicleta e sai de casa. Mal cheguei na esquina e senti que alguma coisa nao estava bem. Nao demorei muito pra descobrir que o grande esforço que fiz para chegar no final da rua provinha de um furo no pneu da bicicleta. Evocando todos os demônios em meios a palavroes e maldizendo a humanidade, voltei pra casa, calma como um anjo, para pegar outra bibicleta.

Aqui em casa, as pessoas sao realmente apaixonadas por bicicletas. Eu, que tenho uma tatuagem de uma bike nas costas, sou a menos apaixonada de todos, contando com apenas duas delas. Tem nego aqui que tem cinco. Entao, nao foi dificil estar de volta à rua com uma bicicleta de dono ignorado, encontrada no jardim. Mas das sete bicicletas que estavam à disposiçao ontem, eu escolhi justamente a que nao tinha freios - deve ser por isso que ela estava à disposiçao. Teria sido mais facil chegar ao meu destino com uma bicicleta sem pneu, mas nao uma sem freios. Mesmo percebendo que ela tinha 10% de freio de um lado e 0% do outro, continuei meu caminho, mas nao sem me perguntar, a cada dez segundos, se eu nao deveria voltar pra buscar uma outra. Cheguei no banco e ainda estava me perguntando se eu nao deveria ter voltado. 

Antes de sair de casa, limpei minha conta pela internet, mas ainda restaram três miseros centavos la. No banco, burocracia francesa:

- Senhor, o senhor quer que eu faça uma transferência para sua conta ou para a conta da madame?

(Camilo com cara de olha-tou-pouco-me-fudendo) - Err... Nao posso "doar" pro banco nao?

(Mulher com cara de cu) - Infelizmente, nohs nao temos o direito.

(Eu, me divertindo muito com tudo aquilo) - :D

E, finalmente, ela fez um recibo pela transferência de três centavos para conta de Camilo. Sou mesmo generosa. Mas se eu soubesse que haveria uma tal movimentaçao por causa de três centavos, teria deixado somente um na conta. Teria sido mais divertido. 

Ao sair do banco, a caminho do tribunal, avisei a Camilo que minha bicicleta nao tinha freio e que a gente teria que ir devagar. Mal subimos na bicicleta, ele olhou pra um semaforo que ficava a um quilômetro e disse "Luci, ja pode começar a freiar". Freei pelo costume de obedecer ao senhor meu honoravel (ex) marido, mas nao é que o conselho foi valido? Ao chegar no semaforo, eu mantinha quase a mesma velocidade de antes. 

Na entrada do tribunal, que dispoe de belissimos bancos de madeira, escolhemos umas pedras que "enfeitavam" o local e sentamos pra conversar besteira. Foi legal. Legal conversar com alguém que te conhece bem pra caralho e nao tem medo do que sabe. Nao senti o tempo passar, mas ainda tinha umas feridinhas que nao estavam cicatrizadas. Mas foi tranquilo  tipo (eu): 

- Quem tem cortado teu cabelo?
- Ninguém.
- Da pra ver.

Antes de passar pelo detector de metais que precede a entrada do tribunal, Camilo me aconselhou a deixar minhas facas e minhas bombas de gas lacrimogênio para tras, o que me fez pensar que os divorcios na França nao costumam ser nada amigaveis. Passei tranquila pelo detector de metais, mas ao tatear minha mochila, o seu puliça me disse que havia tocado "em algo duro e pesado". Até que eu gostaria de possuir algo duro e pesado naquele momento, mas o objeto nao-identificado era meu molho de chaves. Minhas chaves compoem 60% do peso que carrego na mochila, portanto, compreendi a desconfiança. 

Passeando pelo tribunal e nos deparando com pessoas de roupas curiosas, chegamos a um cartaz que dizia "Aide juridictionnelle". Depositamos nosso dossiê que, diga-se de passagem, nao foi aceito. Tinhamos todos os documentos que nao eram exigidos e nao tinhamos nenhum dos quais eles necessitavam. A burocracia francesa, meus amigos, vou explicar como funciona: nao pediram tal documento? Levem-no. Pediram? Levem cinco copias. Quase quatro anos na França e eu ainda nao entendi. Mas volto hoje com a certidao de nascimento do meu cachorro, morto na Paraiba, em 1998. Cês vao ver.

Saindo do tribunal pra recuperar nossas bicicletas, coloquei meu mp3 e Camilo perguntou surpreso: 

- Nossa, o teu ainda funciona?
- Eeeh... funciona, ué. Por que? O teu nao funciona?
- Nem sei, faz tempo que nao uso.

Nos despedimos e, no momento em que coloquei meus fones, vi que o som nao estava saindo como deveria. Gente, praga de ex é pior que praga de mae, é isso? Desconfiada, segui em direçao ao Centro Comercial. Foi quando me deparei com um semaforo. Freei, mas ao inves de sentir o freio, a unica coisa que senti foi o cabo do freio se partindo. Eu olhei pro cabo solto, olhei pra rua, olhei pro cabo solto, olhei pra rua e recorri ao método Fred Flintstone e freei com os pés. Ridiculo. Continuei o resto do percurso até o Centro a pé, levando a bicicleta pra passear, mas me perguntando como eu iria fazer pra chegar em casa (25 min de bike). 

Como ainda faltava umas duas boas horas pro encontro, me sentei em um sofazinho que recebe todos os mendigos da regiao, e eu, e continuei a leitura do meu livrinho. De repente, um cara (que passava anos-luz dos meus criterios de beleza) me pergunta as horas. Pergunta em francês, respondo em francês, mas a continuaçao da conversa é:

- Do you speak english?
- Non.
- Você é de onde?
- Brasil.
- No Brasil nao se fala inglês?
- Nao.
- E você estuda aqui?
- Sim.
- E você mora aqui?

Eu fiz a minha pior cara, a cara mais terrivel. A cara mais cruel. Aquelas que eu soh faço quando o pneu da minha bicicleta fura antes de um encontro importante. Mas mesmo assim, mesmo depois de quase enfiar o livro na minha cara pra mostrar que eu estava indisponivel para conversa, mesmo depois de quase enfiar o livro na cara dele pra ajeitar um pouco aquilo, o cara continuava me perguntando coisas e sorrindo e até mudou de posicao pra ficar mais perto de mim. Oin.

- Moro. Moro com meu marido.

Eh batata, véi. O cara te assedia atééééé o momento em que você convoca a figura (inexistente) de um outro macho. Idiotas. Sério. Vocês pensam o que? Que vocês vao chegar com esse papo mole em uma pessoa que, visivelmente, nao apresenta o menor sinal de interesse e, apos meia duzia de perguntas obvias, a gente vai montar em cima de vocês e implorar por sexo? Vao tentando... Se bem que eu tava com tanta fome que se ele tivesse me oferecido um pedaço de pao seco, eu teria emprestado meu corpo. Emprestado. 

As duas horas e a leitura avançaram. Fui encontrar minhas amigas que estavam acompanhadas de uma muçulmana. No restaurante (finalmente!), falei das minhas aventuras no tribunal e ela contou como foi seu casamento. Disse que usou sete vestidos no dia da festa e, no momento mais esperado, naquele em que ela iria aparecer usando seu primeiro vestido, o noivo dela disse, decepcionado, "ta parecendo o terminator!" 


Casa comigo? 


Eu ri! Mas nao muito que era pra nao constranger demais. Dai, pedimos a boia e, enquanto eu mastigava vacamente minha deliciosa salada, observei que tinha um pedaço de salada transparente que, apos mais alguma investigaçao, se revelou como sendo um pedaço de plastico. Achei interessante a proposta francesa de querer aproveitar até mesmo os sacos plasticos da salada para compor seus pratos, mas ainda nao adotei essa dieta. Perguntei a garçonete o que era aquilo e se eu poderia comer. Ela levou o pedaço da minha salada transparente embora sem dizer nada e nem ganhamos sobremesa gratis. Alias, eu ganhei, mas nao por mérito dela. Valeu, Aline! Pedi minha sobremesa sem plastico e a garçonete nem riu. Franceses.



segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Fila da mae (ou trocadilhos a se evitar)


Todos os anos, eu - e outros milhares de estrangeiros - preciso renovar meu titre de sejour, o documento que permite que eu viva e trabalhe na França. E a cada ano que passa, esse procedimento se torna cada vez mais dificil de ser feito. Ano passado, incluiram como parte obrigatoria do processo a presença do marido/esposa francês na Prefeitura. E, ha alguns meses, um dos meus colocs, originario da Ilha Mauricio, disse que a Prefeitura decidiu limitar a quantidade de estrangeiros atendidos e passou a distribuir apenas duas centenas de senhas por dia. Isso fez com que as pessoas passassem a chegar cada vez mais cedo na fila. Resultado: à 1h da manha, ja tem gente fazendo fila na calçada da Prefeitura. Detalhe importante: o expediente começa às 9h da manha. 

Vocês podem imaginar o tamanho da minha felicidade quando ouvi isso. Sobretudo, porque meu titre expiraria dentro de algumas semanas. Quando a data se aproximou, preparamos a papelada e fomos super satisfeitos, às 4h da manha, fazer o que o ser humano mais gosta de fazer: fila. 

Peguei minha bicicleta (afinal, o metrô nao funciona a essa hora) e fui à Prefeitura. Pelas minhas toscas contas, ja havia umas sessenta pessoas na minha frente. Camilo, zumbi, chegou meia hora depois. A chuva começou. 

Personagens em volta: cinco homens arabes de jaqueta preta falando merda na minha frente. Uma jovem arabe, que tava sendo violentamente cantada por outro arabe que tava atras dela, e um velhinho caquético que eu nao sei bem onde estava. Mas ele parecia ta morrendo.

A noite foi indo embora, a chuva enfraqueceu, as pessoas foram chegando. A conversa entre os arabes era animada e de vez em quando alguém saia da fila pra comprar café. O arabe deu tanto em cima da menina que escutei num momento dela: "olha, você ta me constrangendo, eu tenho namorado". Ele dizia sorrindo: "mas eu nao me importo". Mas a menina era bem simpatica e nao se importou com as investidas, conversou com ele a manha inteira. Eu, morta de tédio, prestava atençao em tudo pra me distrair. Depois aconteceu o que todo mundo sabia que ia acontecer em alguma hora: uma briga. Minha gente, a fila da Prefeitura é mais tensa que roleta russa. Basta alguém dar um passo em falso, literalmente, que a confusao começa. 

O sol apareceu. Seis, sete da manha. O arabe deu um beijo no braço da menina. O velhinho pediu pra eu avançar. O casal atras de mim começou a falar espanhol. Oito horas da manha e varios palavroes na minha cabeça. 

Algum tempo depois, uma velha com seu filho adolescente, pediu pra que abrissem a grade de ferro que define a fila pra que ela entrasse. As pessoas costumam entrar e sair da fila  pra substituir algum parente que esteja cansado de ficar em pé, por isso, ainda que desconfiados, deixaram a velha entrar. O problema é que ela nao estava ali pra substituir ninguém, ela estava ali pra fazer o que NINGUEM, nem mesmo uma velhinha, poderia ousar fazer nessa situaçao: furar fila.

PAM RAM RAM RAAAAAAM!

E na frente de quem ela decidiu ficar? Na minha frente, pessoas. Na-mi-nha-fren-te! Ela entrou na fila e disse "é que eu tou esperando meu outro filho que ta la na frente", aih ela deu um xauzinho la pra frente pra alguém. Soh que esse alguém nao existia! Ela acenou pra nuca das pessoas, porque ninguém respondeu ao aceno. E o Oscar de melhor atriz vai para… 

Meus amigos, vejam bem. Eu sou uma pessoa otaria. Levo desaforo pra casa, nao sei dizer "nao", perco certas oportunidades de falar o que penso etc e tal, mas essa velha despertou meu lado Hulk e, quando eu me dei conta da situaçao, peguei ela pelos bigodes e a arremessei no chao eu perguntei a ela o que ela tava fazendo ali e chutei a cabeça dela quatro vezes pedi gentilmente pra ela ir encontrar o tal filho dela na fila. Como ela ficou enrolando, eu entrei na frente dela e comecei a dizer que eu nao tinha chegado ali às 4h da manha pra que alguém viesse pegar meu lugar e bla bla bla. Pra alguém banana, timida e travada no francês como eu, foi um grande feito. Eu merecia um biscoito.

A pilantra ainda tentou sustentar toda aquela farsa imunda mandando o filho dela procurar pelo suposto irmao, mas o menino era meio atrasado mentalmente porque nao captou bem o que a mae tava tentando fazer e voltou de uma breve procura na fila dizendo "maaaae, eu acho que ele ta em casa mesmo, viu". Game over, dona Maria! As pessoas atras de mim ja tavam com foices e tochas na mao, prontas pra caçar a véia. Ela acabou saindo da fila gritando "minha vingança sarah maligrina!"

Teve um momento em que um passarinho pousou no chao e os arabes enjaquetados gritaram "sai da fila!" hihihi (eu ri!). Quando finalmente deu 9h da manha, e todas as minhas varizes ja gritavam aflitas, a Prefeitura abriu. So que, a essa altura, nao existia mais uma fila definida. A arabe, o arabe, o velho, o casal e outras pessoas estavam ao meu lado, a fila tinha se compactado e ninguém sabia direito a ordem dela. Mesmo debaixo da desordem, conseguimos entrar e pegamos o ticket numero 100. 

Entrei no prédio e me deparei com uma luz muito forte vindo do final do corredor: eram duas cadeiras vazias. Cadeiras, minha gente, cadeiras! Vi que havia duas pessoas se aproximando delas, entao, rapidamente, fiz uso das minhas habilidades na arte do tae kwon do para neutraliza-las. Depois de conseguir os tickets e as cadeiras, a segunda metade do dia foi facil: soh precisamos esperar mais cinco horas até sermos atendidos. Em cinco minutos, a moça simpatica do guichê deu andamento no meu novo titre e disse "volte em três meses pra pegar o documento definitivo". Com prazer. 


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cabaret

Se ha uma coisa que nohs estrangeiros aqui na França adoramos fazer é buscar nosso titre de séjour na Prefeitura. Nossa, adoramos! Afinal, nada mais gostoso do que passar um dia inteiro numa fila cheia de gente tensa e mal humorada na esperança de obter um documento que pode simplesmente nao existir ainda. 

Meu tipo de visto é o Vie Privée et Familiale, o que significa, basicamente, que eu tou pegando um francês e que, por isso, eu tenho direito de morar na França. Entao, a cada ano, durante três, quatro ou cem anos (depende do bom humor do funcionario que analisa os papéis), eu tenho que ir na Prefeitura pra renovar meu titre. Mas como eu ja falei aqui, essa nao é uma tarefa facil. O governo francês faz de tudo pra você desistir de morar aqui. Quando nao te expulsam descaradamente (caso dos Roms), eles criam leis hipocritas pra dificultar a sua vida (caso da proibiçao das burcas). Como eu nao tenho origem cigana, nem uso véu, o governo tenta me vencer pelo cansaço. O titre me da direito a trabalhar aqui, e eu soh posso sair do pais por até três meses. Depois de cinco anos, recebo, teoricamente, um titre de validade de dez anos e posso dar entrada no processo de obtençao de cidadania.


A troca do titre é anual, mas isso nao significa que eu vou somente uma vez ao ano na Prefeitura. Você vai uma primeira vez, munida de todos os papéis que você conseguir carregar: certidao de casamento, de nascimento, conta conjunta, passaporte, foto 3x4, comprovante de residência, cartao telefônico, bilhete de cinema, papel higiênico cagado, tu-do. Aih, você acorda as 6h da manha, corre pra fila e encontra um acampamento montado na calçada da Prefeitura. Somente as 9h da manha as portas da Casa se abrem, mas isso nao quer dizer que você vai entrar. A policia fica por perto. La pro meio-dia, você bota os pés no prédio e recebe uma senha. Numero um bilhao. Você tem medo de olhar pra tela das senhas. Você hesita. Mas você olha. Numero 08.

Obvio que os assentos nao sao suficientes pra todos - se um dia eu tiver varizes, vou saber o motivo. Dai, quando a tarde ja vai alta e você começa a babar de cansaço, seu numero é chamado. No guichê, a moça te diz "desculpe, mas esse papel nao esta cagado o suficiente. Volte outro dia com a documentaçao completa". Derrotado, você volta pra casa, assim, de maos vazias, pra refazer todo o processo num outro dia.

Da penultima vez que fui à Prefeitura, eu estava com todos os documentos em maos. Camilo verificou tudo comigo. Estava tudo nos conformes. Acordei cedo, fui pra fila e, quando ja estava plantada la ha pelo menos uma hora, um policial avisa à mulher que estava na minha frente que ela nao poderia resolver nada pois seu marido nao estava com ela - meu caso. Como eu nao posso pedir pra que Camilo perca um dia de trabalho, ele costuma me encontrar quando ha somente dez pessoas na minha frente. Mas pra complicar, a Prefeitura inventou que o marido faz parte dos documentos e, se ele nao esta com você na fila (que é fechada com grades de ferro pela policia as 9h), você nao pode renovar o titulo -  mesmo que ele chegue as 9:05h e você esteja la ainda, do lado de fora da prefeitura, NA FILA, com TODOS os documentos na maos.

Nesse dia, liguei pra Camilo desesperada, ele chegou 20min depois. Quando o policial deu as costas, ele pulou a grade e fingiu que estava comigo desde o começo. O curioso é que o policial deu uma dica a mulher de como o marido dela poderia entrar na fila sem ser notado (se passando por alguém que ia resolver outro assunto, mas a idéia nao funcionou). Nesse dia, entramos no prédio as 12h. E saimos as 16h. Isso tudo somente pra pegar o récépissé, o papel que substitui provisoriamente o titre.

(três meses depois)

Fui pegar meu titre hoje e, depois de passar somente duas horas na fila, a moça me disse que ele nao estava pronto, que eu devo voltar dentro de dez dias. Acho digno.

- Você pode vir busca-lo em dez dias?
- Na verdade, eu trabalho e estudo todo dia.
- Ah, mas você nao tem escolha.
- Ah, desculpa, mas quando você me perguntou parecia que eu tinha.

Adoro essas questoes, sabe. Quanto custam as vacas? Depende. Depende do que? A vaca preta vale cem. E a branca? Também.

- Ok, volto aqui dia 10.

Nesse dia em que passei nove horas na fila, a policia expulsou uma japonesa que ficou histérica depois de receber um nao. Ela começou a gritar em inglês explicando a situaçao dela. O policial chegou, pegou ela pelo braço e disse "se todo mundo aqui começar a gritar assim, isso aqui vai se tornar uma 'feira'" (foi assim que eu aprendi o que era foiré). Também expulsaram um cara. Mas Sarkozy vai ter que se esforçar mais pra me fazer ficar histérica. E eu sei que ele vai.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

03. Do que é diferente - Kebab


Uma das comidas mais populares aqui na França é o Kebab (no Brasil, conhecido como churrasco grego. Quer dizer, em algumas partes do Brasil, ja que eu jamais ouvi falar em churrasco grego na minha vida). Curiosamente e, como o nome sugere, o Kebab nao é uma comida francesa, mas de origem arabe. E, como os arabes andam aos montes por aqui, a comida se tornou popular (existindo, inclusive, em muitos outros paises europeus). O prato, originalmente, era comida dos reis persas. Os iranianos soh consumiam uma vez ao ano. Na França atual virou fast-food e todo mundo consome, do francês do nariz mais arrebitado à brasileira mais faminta.

Grosseiramente falando, Kebab é um pao com carne, salada e molho que pode vir acompanhado de fritas. Notou alguma semelhança com o que você ja comeu no Brasil? O Kebab é um troço enorme, que mata a fome de qualquer elefante por preços que variam entre 4€ e 7€ o menu (kebab + fritas + refrigerante). A carne (de boi, cabra, carneiro, cordeiro ou frango) é preparada na vertical, num espeto que fica girando proximo a uma grelha. Depois, pequenos pedaços sao retirados com facas enormes - ou eletricas, que garantem fatias mais fininhas.


Os molhos sao o que me fazem notar a diferença entre um hamburguer brasileiro e um Kebab. Curry, tartare, picante, branco e por aih vai. Todos uma delicia! Peço sempre o branco, porque um dia pedi um picante (sem saber do que se tratava, claro) e passei 20 min com a sensaçao de estar mastigando um pedaço de brasa. Em cada esquina do Brasil tem um lugar onde se vende coxinha, pastel, hamburguer e pizza a preços acessiveis. Na França, se você esta fora de casa, tem fome e pouco dinheiro, o Kebab é a unica solucao. Os menus nos restaurantes nao custam menos de 8€. E se você tem pressa... O melhor sao os nomes que qualificam os diferentes tipos de Kebab e molhos. Senjeh, Bareh, Koobideh. Nao é a toa que eu sempre deixo Camilo fazer o pedido: pedir comida arabe com sotaque francês nem sempre é obvio.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Defenda-se: você não esta sendo atacado!

Não sei se as brasileiras que moram na França e leem este blog vão concordar comigo, mas o povo francês é tão briguento! Seis meses aqui e eu ainda me impressiono. E por briguentos eu não quero dizer "lutadores", tipo assim, estilo Street Fighter. Eh uma coisa mais simples mas que me assusta igualmente. Eh o fato de você estar sempre inflamado e armado (não no sentido literal) pra se defender. Se defender mesmo que não estejam te atacando! Voila! Esta é a descrição!

Eh extremamente comum ver as pessoas se gritando no meio da rua. Mas eu vou ficar na coisa mais gratuita, que são as pequenas ações chatas do cotidiano. Por exemplo. Quando você vai pegar o metrô, a educação (e o bom senso) faz você deixar todas as pessoas sairem antes de você entrar. Mas semana passada, no metrô, eu vi que não tinha ninguém saindo, entrei, mas dei de cara com uma velha tentando sair. A porta do metrô é enorme e dava pra passar as duas tranquilamente sem mesmo haver necessidade de nos tocarmos. Mas ela precisava garantir seus direitos. E precisava garantir seus direitos gritando e sendo chata. "Minha filha, deixe eu sair primeiro!" E resmungou até eu perder ela de vista.

Ainda recentemente, sentei ao lado de uma loira no metrô. O metrô ia em silêncio, completamente tranquilo. De repente, essa mulher, DO NADA, olha pro outro lado (acho que foi pra um homem) e da um grito bem alto, que eu interpretei como "tah olhando o que, filho da puta?" Interpretei isso tudo porque um homem começou a rir dela. Mas é assim o tempo todo. As pessoas se gritam no metrô, na fila do banco. As pessoas ficam putas e são grossas por muito pouco. Basta trocar o "vous" pelo "tu" e sua vida corre risco. Tenho na cabeça muitos outros exemplos que me fogem agora porque muitos deles ja foram pro arquivo de coisas comuns que vivo na França.

Discutindo sobre isso com Camilo, vi que os dois estavam de acordo que isso é herança de um povo que sempre lutou pelos seus direitos. Eu nunca vi um pais fazer tanta greve, por exemplo. Aqui, qualquer suspiro mal dado por um politico gera uma passeata, uma reinvidicação. Inclusive, eu disse a Camilo que achava que o caso da briga com a arabe do carro do outro dia, poderia ter sido influenciada por esse clima de tensão que os franceses vivem. Não vou dizer que me sinto bem com isso, mas se for pra viver num pais onde as coisas funcionam, eu até aguento as velhas do metrô.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Oinc

Passei o ultimo domingo em frente ao computador curtindo uma insistente ressaca da bebedeira do dia anterior. No final do dia, comecei a sentir uma cansaço extremo, dores nas costas, na cabeça e uma sensação de febre. Pensei que ressaca tava indo longe demais. Fui dormir e acordei as 4:30h da madrugada com a cabeça estourando e uma febre alta. Depois de me dar remédio e procurar (em vão) o termômetro, Camilo foi pro Google pra saber o que eu tinha.

- Acho que tu ta com gripe.
- Mas eu não tou espirrando.
- E dai?

Sei la, pra mim gripe = espirro.

Como eu não queria esperar que meus pulmões se desfizessem em catarro pra procurar um médico, pedi pra Camilo marcar, na primeira hora util do dia, uma consulta pra mim. As 14h fomos visitar uma francesa de sobrenome arabe (Camilo escolheu ela pelo sobrenome. Preconceito?). Ela confirmou que eu tava com gripe. Não com a gripe, mas que, em todo caso, ia me tratar com o tal do Tamiflu. Bom, depois ela disse que eu tava com uma versão light da Gripe e eu não entendi mais nada. So que eu deveria ficar, obrigatoriamente, cinco dias em casa. Essa é a parte boa. Quer dizer, essa é a parte ruim. Não sei.

Fiquei pensando se a vacina ou o Tamiflu teriam efeitos colaterais complicados e acabei achando isso aqui na internet:

Existem preocupações de que o oseltamivir (Tamiflu) pode causar perigosos efeitos colaterais psicológicos, neuropsiquiátricos, incluindo automutilação em alguns usuários.

Lim-pe-za. Chegar pra Camilo com meia perna e dizer que foi culpa da gripe. Bom, de qualquer forma, liguei pra mme. Cler pra avisar que eu soh voltarei a trabalhar segunda e ela pareceu bem compreensiva. Mas agora é bom que todo mundo seja compreensivo comigo: agora eu sou uma pessoa perigosa. Então, se vocês tiveram algum amigo do qual não gostem, eu posso tossir na cara dele, sem problemas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ai, se sêsse...

Hoje foi o segundo e ultimo dia de palestra da Prefeitura. Se ontem eu achei que tinha visto muito preconceito, é porque não esperei pra ver a sequência cômica de hoje.

Antes de tudo, lembrei que M. disse ontem que ele pensava em ir pra Strasbourg (cidade colada com a Alemanha) porque ele achava que la tinha menos desse povo. Ta bom, meu filho. Strasbourg é o recanto perdido dos ultimos franceses puros deste pais. Hoje a sala de aula tinha menos arabes. A maioria era de um outro pais que ficava no sul de sei la onde (veja como eu presto atençao nas informações). Comentario de M.: "hoje tem menos dessa porra desse povo!". Com todas essas letras. Gentil.

Mas M. não teve o privilegio de ser a unica figura intolerante por ali. A palestra de hoje girava em torno da historia da França e dos direitos dos cidadãos. Falava bastante de 1789 e do quanto esse povo (dessas vez, "esse povo" são os franceses) repudia as diferenças e trata seus filhos e seus imigrantes como iguais. Eu fiquei emocionada. No final da palestra, a mulé passou um questionario pra gente com questões do tipo:

- A mulher tem os mesmos direitos que o homem na França? ( ) sim ( ) não
- Um homem pode se casar com outra mulher mesmo estando casado? ( ) sim ( ) não
- O chefe da familia é o homem? ( ) sim ( ) não
- As mulheres devem pedir autorização do marido para utilizar metodos anticoncepcionais? ( ) sim ( ) não

Ao final, fomos corrigir as questões. Eu sabia que muita gente ali achava que o homem é o rei do lar, mas eu não imaginava que eles iam gritar isso dentro da sala pra todo mundo ouvir. Em relação à ultima questão, um dos caras respondeu "eu não concordo!". E a palestrante rebateu "é, mas não funciona assim".

A mulher que tava sentada na minha frente, devia tah se achando A pensadora liberal, racional, evoluida, porque, toda vez que a palestrante dizia que, por exemplo, a mulher na França tinha direito de escolher com quem queria se casar, ela dizia "ah, mas isso é obvio, em todo pais é assim". Eu ja tava ficando puta! Porque, ô, criatura, ou tu é muito ingênua/ignorante pra achar que isso é muito obvio e que a realidade da mulher em todos paises é assim (livre-arbitrio) ou tu ta dando uma de doida. Finalmente a palestrante respondeu à essa também dizendo que, não, coração, não é assim em todos os paises. Ai, se sêsse...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

T-o-l-e-r-â-n-c-i-a

Uma das minhas obrigações perante o Estado francês para permanecer no pais estah em assistir dois dias de palestra sobre a cultura francesa, como os direitos trabalhistas, o sistema de saude, o funcionamento escolar, os direitos e deveres do imigrante etc. Para esse evento, realizado hoje e amanhã, foi contratato um tradutor português especialmente para minha pessoa. O nome dele é M. e eu o conheci no dia em que fui assinar o Contrato de Integração e Acolhimento. Ele foi meu intérprete na ocasião. Agora, meses depois, nos encontramos de novo. Ele é pernambucano e, de cara, nos demos muito bem porque... Bom, ele é pernambucano.

Apesar de M. ser legal e da gente se dar bem e de conversar bastante sobre qualquer assunto e de até nem ficarmos constrangidos no silêncio, desconfio gravemente que não seriamos assim, chegados, se tivessemos nos encontrado em outra situação que não a do estrangeiro. Seguinte: a sala da palestra era composta de arabes, arabes e arabes. E eu (das 25 pessoas na sala, eu era a unica não-arabe). Aos dois minutos do primeiro tempo, M., quando foi se referir aos arabes, soletrou a palavra: "os a-r-a-b-e-s..." e eu fiquei sem entender o porquê de tanto segredo. Na segunda, na terceira e na quarta vez, ele usou "esse povo" pra se referir aos, err... a-r-a-b-e-s. (Shhhi!) Comecei a achar que ele tinha problemas com os arabes quando a expressão foi mudando de cor e de tom, quando "esse povo" se transformou em "ESSE POVO!" com direito a entortada de nariz. E, obviamente, eram sempre frases negativas e, as vezes, desconexas. Eu:

- Tu acha que todo mundo aqui (olhando pros arabes) é casado com francês? Ou eles assinam o Contrato porque trabalham na França?
- Menina, esse povo não é casado com francês não! Err, teu marido é francês-francês? Hum! Então, esse povo casa com francês e traz a cultura deles pra cah e depois enchem a boca pra dizer que são casados com franceses!
- (Eh o que, homi?)
- Eles casam com um francês que passou a vida toda lah. Eles passam a vida toda lah e depois vem pra cah com a cultura deles e não se adaptam! Entendeu?

Não.

Depois de uma certa confiança, M. foi rebaixando os arabes e dizendo que era dificil competir com eles porque essa gente soh da emprego pro povo deles. E era um tal de essa gente! pra cah e esse povo! pra lah e eu comecei a achar que os arabes pro M. eram assim, gente de outro mundo, de outro universo, quem sabe nem eram gente.

Eh incrivel como francês e arabe aqui não se mistura. E a resistência, a meu ver, vem de ambos os lados. Outro dia, quase tive um ataque cardiaco ao acompanhar um topico 100% brasileiro no Orkut sobre a presença arabe na França. A questão era sobre adaptação e, à certa altura, uma fulana comentou que ela fazia o maior esforço pra se adaptar à cultura francesa e achava que, se os arabes não conseguiam se adaptar aqui, eles deviam voltar pra terra deles!

Sabe, por exemplo, essa terra?

A fulana falou que ela teve que se adaptar às formas de redigir um trabalho no computador (por exemplo, ao escrever em francês, a gente deixa um espaço entre a ultima palavra e o ponto de interrogação. O mesmo serve para o sinal de dois pontos). Ela também teve que se acostumar com a agua daqui, que é diferente. Ela teve que se acostumar a um bocado de coisa, minha gente. Eu fiquei com pena dela, quase não consegui dormir naquela noite pensando o quanto deve ser duro pra ela apertar a barra de espaço toda vez que precisa colocar o ponto de interrogação. Deve ser horrivel.

COMO eu posso comparar minha adaptação na França com a adaptação de um arabe aqui? Pra mim, a coisa mais dificil de assimilar até agora na França é o fato de que minhas chances de ser estuprada ou assaltada aqui são quase inexistentes. Foi o maior choque cultural. Eu não precisei deixar minha religião fora do meu lugar de trabalho, de estudo, eu não precisei aprender outros codigos linguisticos, outros codigos juridicos, outros codigos... sociais. Não, não defendo a isolação do arabe na França. Até porque deu uma peninha tão grande quando aquela mulher de 50 anos me parou no Leader Price pra saber qual o produto era mais barato, se aquele de 85 centavos ou o de 92!

Tah dificil. Se um imigrante não pode compreender a situação de outro imigrante, o que porra eu posso esperar dos franceses?

domingo, 1 de novembro de 2009

Garotos nunca dizem não

Pequenos adendos em forma de post. EU PRECISO!

Os comentarios do post passado feitos pelos homens são a prova concreta de que vocês, definitivamente, não entendem o que é ser uma mulher. Digo, não entendem o quanto é dificil ser uma mulher. Fazem idéia, mas não entendem. Tem o comentario de Mythus onde ele diz que ja sofreu cantadas ("sofreu" é expressão minha, ja que homem não sofre cantada, ele recebe) de mulheres nas ruas e ficou constrangido. Pra mim, isso é novidade. Acredito nisso, mas eu duvido muito que algum desses comentarios tenham deixado você "amedrontado" ou "emputecido", tipo assim, como acontece com a gente.

Quanto aos comentarios de Luis, não, caro amigo, nossa reação não foi desproporcional. Desproporcional foi a reação de centenas de estudantes de uma universidade ao verem uma menina usando uma minissaia.

E quanto ao comentario de Ailton... Ufa! Ainda bem que você veio nos iluminar com sua opinião. "Luis tem razão mesmo. Queiram ou não". Vou repetir: queiram-ou-não. Ponto. Afinal, ninguém melhor do que um homem pra entender a realidade de uma mulher num pais latino-americano, altamente machista/moralista. As mulheres não devem sofrer nenhum tipo de preconceito no meio da rua. Mas (e o "mas" da discordia aparece novamente!) se ela usa uma roupa provocativa, ela estah pedindo pra ser abordada. Eh como usar uma tatuagem. Ninguém usa uma tatuagem pra se enfeitar. As pessoas usam tatuagens porque gostam de sofrer preconceito, porque gostam de serem olhadas de viés. A verdade é essa. Queiram ou não.

Nos meus pobres 24 anos de vida, soh conheci dois homens feministas. Não por acaso, eles foram meus namorados. Camilo Marti e Fabio Viana. Não por acaso, eu me apaixonei perdidamente pelos dois porque eles nunca, JAMAIS me disseram o que eu podia e não podia fazer por ser mulher. Fabio nunca discutiu o tamanho da minha roupa, Camilo me incentivou a casar (e casei) de decote (isso, pra ficar soh no topico "vestimenta"). O tipo de homem que diz que é liberal mas castra a namorada pra mim é um bosta. Eh como aquele povo que diz que não tem preconceito com gay, mas se arrepia de nojo quando tem que apertar a mão de um. Pior que isso é o "não tenho preconceito, desde que fique longe de mim". Claro. Não sou machista, mas namorada minha anda na linha. Que linha mermo?

Pra finalizar, a pergunta que Mythus me fez post passado (espero que tenha respondido):

Qual a reação que a senhorita gostaria de provocar ou ver naqueles que se deslumbrarem contigo?

Sendo bem direta: quando quero impressionar alguém, seja um homem, seja uma mulher, eu prefiro usar a cabeça a usar minhas coxas. Mas se eu fico sabendo que alguém se impressionou com alguma parte do meu corpo, definitivamente, isso não vai tirar meu sono. Otimo! A questão não é absolutamente o que as pessoas possam sentir por mim, mas a forma delas externarem isso. Eu não me importo se eu provoco masturbações, pesadelos, simpatia ou sorrisos falsos. Eu não me importo. O que eu acho grosseiro são as reações. Não preciso ninguém babando em cima dos meus peitos, nem pegando na minha bunda como se eu estivesse dormente. Não quero ninguém me chamando de puta ou soltando gracinhas pelo decote, pela minissaia, por mais que eu esteja "provocativa" ou "chamando a atenção", seja la o que for isso. Finalmente, o problema não esta na minha provocação, esta na reação alheia. Quer a gente queira, quer não. Infelizmente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

00,01%: eu gostchio!

Eh quase meia-noite, estou caindo de sono e, dentro de poucas horas, terei que estar pronta pra aproveitar mais um maravilhoso dia de faxina. No entanto, um assunto pede urgência.

Luluis, meu querido, desculpe, mas seu comentario no meu post passado foi extremamente infeliz (pra usar um termo decente). Vamos discuti-lo, amiguinhos?

"99,99% das meninas odeiam esses 'psiu' e 'vem cah', isso é óbvio, mas se uma menina anda quase nua na rua (oq não é o caso de vcs, moças de bom gosto) é pq tá querendo se exibir. E mesmo q ela seja boboca o suficiente pra não ter essa intenção, a galera vai cair em cima, aí não tem pra onde. Se elas não têm bom-senso, não vão ser os caras q vão ter".

Obviamente que um paragrafo machista como esse renderia um livro feminista. Como eu sou escritora de blogs fajutos, não de livros exemplares, deixo aqui apenas minha indignação. Não contra sua pessoa, cuja figura me é valiosissima! Mas ha de se lamentar o deslize, oh, se ha!

Luis, eu gosto dos meus peitos. E acho que não sou a unica. Entendesse? Eu gosto dos meus peitos e gosto dos meus olhos. Pros peitos, eu usava decote, porque gostava de realça-los. Pros olhos, eu usava rimel, pelo mesmo motivo: pra realça-los. Quando percebi que era mais perigoso usar decote do que rimel, parei de usar decote. Me pergunto: é justo?

Leitura obrigatoria:
Sindrome
Lola

Meninas, o que vocês acham?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Homens são diferentes, machos, iguais

Uma coisa que vai ser obvia pros brasileiros que moram na França (ou na Europa, em geral), mas que pode ser uma novidade pros amigos brasileiros: a França é cheia de arabe. Cheia, cheinha. Ja li que é o pais com o maior numero de arabes na Europa, cerca de 10% da população francesa. No começo da minha estadia na França, lembro que eu ficava super impressionada (SUPER!) quando uma mulher passava por mim com um véu. Quando vi uma mulher usando uma burca, quase que caio pra tras! O choque visual foi extraordinario. Foi alguma coisa do tipo "nossa, elas realmente usam isso". Eh, Luciana, não foi Jade quem inventou a burca.

Mas antes de continuar o post, tenho que admitir minha completa e vergonhosa ignorância acerca dos costumes arabes. Não ha Wikipedia que baste. Morro de vontade de conversar com uma arabe, mas tenho receio de cair nas perguntas-clichê que seriam totalmente voltadas pro bem estar dela dentro de casa, pra religião e pro machismo. Por mais que se diga que algumas mulheres gostam de usar o véu, e não o fazem soh por questões religiosas, eu acho que sempre olharei pra elas com um pouco de pena*. Mas o que tem me incomodado mesmo são os homens arabes. Alguns, obviamente.

Eu percebi, e comentei com Camilo, que todas as vezes em que fui chateada na rua por homens, foi pelos arabes. Sério, todas as vezes. Eh logico que esse post tem tudo pra ser interpretado como um post de uma pessoa preconceituosa e eu não vou ser tão simploria em me defender repetindo o discurso do povo que se julga desprovido de preconceito do tipo: minha vizinha é arabe e meu tataravo também e eu estudo com uma ruma de arabe, logo, não posso ser uma pessoa preconceituosa. Sinto muito. O que eu tenho que admitir é que eu não me sinto bem entre os arabes jovens. Se isso é preconceito, eu aceito o dedo em riste, mas a verdade é essa: eu não me sinto bem entre arabes jovens do sexo masculino. E é bem especifico, assim mesmo!

Os arabes (sempre lembrando que estou falando dos "arabes jovens do sexo masculino") andam sempre juntos, com seus tênis brancos, seus mp3 às alturas e as calças esportivas com elasticos nos tornozelos. Eh facil reconhecer. O meu mal estar e insegurança chegaram depois de sucessivos acontecimentos infelizes entre mim e os AJSM.

Uma vez, eu tava andando de bicicleta com Camilo. Vocês sabem o quanto eu sou perigosa sob duas rodas, não sabem? Pois, nesse dia, resolvi atravessar justamente o caminho de um AJSM que também vinha de bicicleta. Quando notei o cara, freei à tempo, mas isso não impediu que ele, ao passar por mim, me xingasse. Ele GRITOU na minha cara. Perguntei a Camilo o que ele tinha dito e Camilo ficou calado. Perguntei de novo e ele disse que foi qualquer coisa sobre minha irmã (?). Camilo queria me poupar da raiva.

Ai vocês pensam que eu tou sendo dramatica e eu digo que não. No Brasil, eu ja fui abusada na rua diversas vezes, não gosto disso, mas duvido que alguém diria que eu tenho preconceito com brasileiro, não é mesmo? O problema é que, do mesmo jeito que eu não gosto de passar perto de grupos de homens brasileiros (aih, a idade não importa), eu também me sinto incomodada com os AJSM. Se isso é ter preonceito, então tenho preconceitos com brasileiros e AJSM.

Fora as cinco ou seis vezes em que tive a atenção chamada por algum grupo de AJSM ("vem cah", "psiu" e coisas do tipo), vou citar outro exemplo. Uma vez eu tava com Camilo, tinhamos acabado de comer um Kebab (de Kebab eu gosto...) e estavamos sentados numa praça. Tava cheio de AJSM em volta e eu tava atenta à movimentação deles. Noto que um vem se aproximando da gente, olho pra ele, ele olha pra mim e, ao passar pela gente, me diz: "salope!" Salope significa nada mais, nada menos, do que "vadia". Velho, eu fiquei paralisada. Perguntei a Camilo se ele tinha escutado, se aquilo tinha mesmo sido comigo e a gente viu que sim! O cara olhou nos meus olhos e me chamou de puta! Assim, de graça.

E ha umas duas semanas, eu tava num restaurante arabe (num bairro arabe) com Camilo e o pessoal do trabalho dele. Era horario de almoço e, como eu ja tinha terminado o meu e precisava voltar ao trabalho, me despedi dos que ficaram na mesa e sai do restaurante. Dei dois passos fora e um AJSM passa por mim e me da alguma cantada altamente sebosa a julgar pelo tom de voz dele e a forma que ele me olhou. Eca, é aquilo que eu chamo de sexo oral! Fiquei tão puta que arremedei o que ele falou fazendo "nhem nhem nhem" com a lingua pra fora. E passei. Ai ele disse algo do tipo "ah, você não é tal coisa não?" mas eu ignorei. Qual foi minha supresa quando, ao me virar pra tentar desamarrar minha bicicleta, vi que o cara tinha parado e tava me olhando. Ai eu, MAIS PUTA AINDA, olhei pra ele e disse "o que é?". Na hora ele arregalou os olhos, acho que ele não esperava que eu fosse confronta-lo, mas eu repeti "qu'est ce qu'il y a?" umas três vezes olhando pra ele e depois fui embora. O otario soh ficou repetindo meu qu'est ce qu'il y a? Cadê a macheza de dez segundos atras?

Saindo um pouco do tema arabe, ja que isso não é ação soh deles... Acho foda quando sou tratada dessa forma. A Lola morre de falar sobre isso e a gente morre de concordar, mas sempre vai ter cara que acha que essa é uma pratica supernormal, que mulher foi feita pra isso mesmo: pra ser humilhada na rua, abordada, comida com os olhos (quando não pela propria ação). E a gente sempre acanhada. Depois que percebi que boa parte desses otarios soh faz isso porque sabe que a gente não tem coragem de enfrenta-los, é que comecei a fazer isso. Claro que eu não aconselho ninguém a peitar um cara numa rua esquisita. Mas, por exemplo, coisas saudaveis: toda vez que eu voltava da casa do meu ex-namorado, de noite, pegava um ônibus bem vazio com um babaca que sentava la na frente, se virava e ficava me encarado. Tipo assim, colocava o cotovelo no encosto da propria cadeira e ficava apreciando minha estonteante beleza loura. No dia em que eu cansei de me acanhar e mostrei o tamanho do meu dedo a ele, ele soh olhou mais uma vez e parou.

E agora, a moral da historia: nenhuma. Apesar de ter falado durante boa parte do post sobre minha indignação com certos arabes, essas cantadas baratas são coisa universal e acho que, aonde quer que eu vah, vou escutar piada babaca. Afinal, tem alguma mulher que esta me lendo nesse momento que NUNCA teve que escutar piadinha de merda? Seja de AJSM, seja GHRE, seja de BDSZ, KGFV, WXSZJHI... e a puta que pariu?

Como eu imaginei.

*Update (19 de maio de 2010): apesar de nao fazer muito tempo que escrevi isso, me surpreendi com essa minha "pena" em relacao as mulheres que usam veu e sao submetidas a outras formas de (do que eu julgo ser) opressao. Eh facil criticar o veu, mas a gente esquece que, desse lado do mundo, as mulheres sao tao oprimidas quanto, cotidianamente, atraves de pequenos atos que ja foram absorvidos por nossa cultura machista e a gente nem se dah conta! Nao retiro o que eu disse, retifico: tenho pena das mulheres desse mundo.

Talvez

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