domingo, 28 de abril de 2013

Cinco anos em cinco meses (ou do amor pelo lado de lah).

Nao querendo ser monotematica, mas ja sendo, queria colocar para fora um post que martela ha alguns meses minha cabeça  sobre a França e sobre essa coisa de evoluçao - e talvez ovulaçao, porque parte desse post é oferecimento da minha tpm. 

Quando eu cheguei aqui na França (2009), me sentia uma estranha em absoluto. Eu estava convencida de que soh estava aqui por Camilo - apesar da antiga vontade de ir embora do Brasil (Brasil = Joao Pessoa. Joao Pessoa = casa dos meus pais). Até hoje, eu nao sei se fui feliz ou nao nesses anos todos em que vivi aqui. Acho que Camilo era uma boa fonte de felicidade que mascarava a solidao sentida. Eu acordava respirando Camilo, mas começava a beber às 8h da manha nos finais de semana pra ver se aguentava o tranco de estar sozinha. E eu, que gosto tanto de falar (o blog veio da vontade de falar, nao de escrever), comecei a me fechar na minha conchinha. 

Ia pro trabalho/faculdade, voltava pra casa, entrava pelas escadas exteriores que davam acesso direto ao meu quarto (para nao ter a necessidade de entrar pela sala e cruzar com meus colocs) e soh descia quando o jantar estivesse pronto. Uma vez terminada a refeiçao, eu subia e me escondia novamente. Disso, surgiram inumeras brigas ferozes com Camilo que, sei la porque, gostava de perder tempo falando merda com o pessoal la na sala. O unico momento em que eu me permitia ser social, era com um, dois, três, vinte, copos de cerveja na mao. Nao gostava de falar francês porque coloquei na minha cabeça que, por nunca ter feito um curso decente, eu nao sabia falar francês. 

E dai, mesmo estando tao longe, eu tinha uns pesadelos estranhos com meu pai. E me pegava com o coraçao acelerado pelo pensamento de um dia ter de ve-lo novamente. Mas ao mesmo tempo, eu pensava em Fabio e meu coraçao se enchia da mais fina angustia, aquela coisa negra que ia me secando por dentro - alguns a conhecem como "saudade". Mas aih a angustia ia embora e dava lugar ao medo. Eu tinha medo de falar, de contactar as pessoas, de sair, de voltar, de ficar e de ser. E, como se nao bastasse, vinha sempre, uma vez ou outra, aquela sensaçao de nao pertencer a lugar nenhum, e alguns pensamentos sempre introspectivos e pseudo filosoficos sobre a necessidade de se pertencer a algum lugar. Eu pertencia a Camilo. E ele dizia que eu era a casa dele. E parecia um bom acordo, porque a gente parecia feliz. E eu amei tanto esse homem! Eu nem lembro mais como era, mas sei que amei porque eu preferi me abandonar à abandona-lo.

Acho que meu amor se confundiu com dependência. Eu nao conseguia fazer nada sozinha. No começo, mesmo quando eu conseguia me exprimir razoavelmente em francês, eu pedia pra que ele fosse comigo ao médico. Eu fazia uma drama pra ele ir comigo resolver algo na Prefeitura. Eu entrava em pânico e fazia birra de criança pra que ele fizesse algum telefonema de meu interesse. Uma vez, a gente pegou uma briga fenomenal nos metros parisienses, porque eu queria que ele me acompanhasse a um lugar que ele nao queria ir - tudo isso porque eu achava que eu era incapaz de voltar pra casa sozinha. Ele corrigia meus trabalhos da faculdade. Eu nunca viajava sem ele. Nunca saia sem ele! Cinema. Camilo. Teatro. Camilo. Show. Camilo. Bar. Camilo. Sim, eu tenho muita vergonha de dizer isso. Eu realmente fui muito fraca. Eu achava que tentava mudar isso, eu queria que as pessoas falassem comigo, mas quando elas falavam, eu rezava pra que elas se calassem. Eu soh queria que elas soubessem que eu era mais interessante do que aquilo, mas eu nao queria fazer esforço pra isso, porque "esforço" subtendia "falar" e, isso, eu nao era capaz de fazer.

E, apesar de toda essa dependência, eu acordei e finalmente percebi que eu tava tao vazia, tao pobre, que eu nao o amava mais, que eu estava com ele, nao mais por amor, mas por medo e, nesse dia, eu realmente me senti (ainda mais) sozinha. Tentei colocar a culpa na minha extrema e fatal instabilidade. Culpei meu signo. Culpei a lua. Culpei Lula - porque todo mundo culpa o Lula. Culpei a França, o Brasil. E lembrava de Artur da Tavola (desculpa atencipada, pois citaçoes soam sempre quase esnobes) quando ele dizia que "(música é vida interior, e) quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Eu achava que tinha e, portanto...

Quando acabamos, eu entrei em depressao. Alias, aquilo deveria ter outro nome, porque depressao eu ja tinha sentido, mas "aquilo" era mais intenso e "aquilo" me transformou. Eu achava insuportavel viver, mas vivia porque eu sabia que fazer alguma besteira iria provocar uma tristeza semelhante na minha mae e esse pensamento me apavorava (desculpa o drama, mas foi assim que aconteceu e, apesar de eu nao entender mais aquela tristeza, eu sei que ela existiu e que foi dessa forma que ela fez parte de mim). Até que um médico me disse que aquilo tudo era, em parte, decorrência de um tumor. Fui pro Brasil desejando estar com meus pais. Sim, pai e mae. Fiz a cirurgia e, quando voltei, meus amiguinhos...

Quando eu voltei, decidi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer. Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Parei de me trancar no quarto. Decidi que meu francês nao é bom para um francês, mas que é bom para uma estrangeira. Perdi quase todo o peso ganho durante a doença. Entrei no mestrado, mesmo sabendo que nao haveria ninguém pra corrigir meus trabalhos. Fui descobrindo simplesmente o que era ser eu de verdade - quando comecei minha vida sexual/amorosa, engatei nove anos no stop de namoro e era a primeira vez em que eu estava vivendo sem um cara pra me dizer o que fazer (sou feminista, mas...). Fiquei meio perdida no começo porque sou o tipico clichê de menina que nao teve a figura do pai presente e que demanda muita atençao dos namorados. Agora, gasto meu dinheiro da forma que quero - agora nao gasto mais porque, se somos livres, "nohs gatos ja nascemos pobres", nao esqueçamos. 

Aprendi a viajar sozinha - na primeira vez que viajei sem Camilo, foi pra fazer um trajeto de pouco mais de uma hora. Compro uma quiche, entro no trem, me deparo com uma cadeira vazia ao meu lado. Aguento firme, mas ao ver que nao tinha ninguém pra dividir a porra da quiche, começo a chorar. E fico assim, comendo a quiche e chorando, tendo pena de mim. Deprimente. Hoje, eu prefiro viajar sozinha, isso me da a oportunidade de passar o tempo olhando pela janela, de observar as vaquinhas no pasto ou, em dias feios, de ver macro espermatozoides de chuva se formarem na janela do trem. Aprendi a planejar coisas sozinha. Viajo e, quando volto pra Lyon, vem quase sempre uma lagriminha emocionada me socorrer quando me dou conta de que aqui é minha casa. 

Eu cortei meus cabelos! Dei um pulo dificil para fora dos padroes e agora nao sou mais a menina de cabelos longos e lisos. Sou uma mocinha de cabelos curtos e cacheados (e crespos!). Decidi usa-los como eles sao e, porra, vocês nao imaginam a liberdade que é poder ser você mesma. Fiz o primeiro Amigo francês. E o segundo e o terceiro. E agora, quando eu chego em casa, as pessoas sorriem ao me ver. Quando estou estudando no quarto, elas batem na minha porta e me mandam descer. E eu ainda nao me acostumei com isso. Porque essas eram as pessoas que eu admirava em silêncio ha uns anos e, agora, elas me dizem "eu te amo". Eu amo meus colocs. Eu aprendo com eles. Sao dez ao todo. A gente fala tudo sobre tudo e sobretudo sobre nada. E acho que, finalmente, o que me salvou foram as pessoas. Eu ja tinha falado aqui, num post antigo, que o importante nao é o lugar, mas quem te rodeia. Pra mim, vida interior, Artur, sao pessoas. Eu preciso disso. Eu preciso falar, preciso ser ouvida, mas também tenho necessidade de ouvir, de conhecer o outro. 

Nesses meses em que passei longe do blog, recebi alguns emails de leitores desconhecidos que dizam "olha, desculpa, você nao me conhece, mas eu leio seu blog e sinto como se te conhecesse", e dai, elas me perguntavam se eu ia bem e contavam um pouco a historia de vida delas. Gente, eu amo! Eu acho isso genial! Gosto de gente dada (ui), aberta (ui), que nao faz pose, que nao faz tipo. No começo de 2008, um amigo me escreveu um email depois de ler um post antigo meu num blog antigo.

(...) Desculpe o texto pseudo-sério, mas seu post realmente mexeu comigo, de alguma forma... acho que fiquei meio emocionado, de alegria e tristeza por me sentir em sua pele. Ainda assim, quero que você guarde pra sempre a forma como te admiro; bem como a forma verdadeira como você ama esse negócio de viver - que faz parecer que você não tem medo de nada, parece que nada é realmente tão grande que não possa ser alcançado.

Pois é, eu tive medo de muita coisa, mas parece que continuei conquistando-as  - pelo menos era isso que Camilo me fazia tentar enxergar. Acho que aqui, na França, eu tive a oportunidade de crescer. Sim, poderia ter sido em qualquer outro pais, mas nao foi. Foi longe de casa, longe do meu perimetro de segurança. Me fudi muito sozinha, mas percebi que tudo isso fui eu quem provocou. E, apesar de achar que fosse enlouquecer em certos momentos por nao ter ideia do que fazer com minha vida, olho pra tras e sorrio com toda a ironia que me acompanhou. A vida é irônica. E soh. Sinto como se tivessem me dado uma injeçao de vida. Decidi parar de me vitimizar, de achar que eu sou fraca. Ninguém sabe que você é fraco até que você o diga - gente, baixou o satanas da auto-ajuda? E, finalmente, acho que estou onde eu queria estar. A França me emociona ♥. Aqui é casa e vai ser casa pelos proximos nove anos - a nao ser que eu queira partir de novo, porque eu tenho a escolha. Mas tenho amado esse pais. Adorei fazer o post anterior, adorei perceber que eu faço parte disso. Nao foi pela beleza do pais que eu vim, mas foi pela beleza que eu fiquei. E, sim, pelo povo. Nao escutem os clichês que rolam por aih sobre os franceses. Os franceses sao sim um povo amavel. E quem diz o contrario, nao conhece os franceses. 

Sei que a vida vai continuar nao sendo facil. Mas eu tou bem acompanhada. Eu tenho eu. :)



sexta-feira, 19 de abril de 2013

47 coisas sobre a França que nao vao mudar sua vida



Depois do post do francês que escreveu algumas verdades sobre o Brasil, pipocaram brasileiros que vivem ou viveram na França fazendo o mesmo. Teve até uma versão gay da coisa rolando. Eu, que sigo o curso do rio, achei por bem fazer algo semelhante – vale lembrar que me apoiei em comentários ou posts de amigos e ainda dos posts supracitados. A única “originalidade” aqui vem da maneira de contar o que eu vejo/vivo na França.

1. Aqui impera o self-service : nao ha frentista, nao ha porteiro nos prédios ou empacotador nos supermercados. Ha poucas pessoas para explorar*.

2. Aqui, o salario minimo garante uma vida decente. Ganhei mais como faxineira na França do que como jamais ganharei como historiadora no Brasil. Ou historiadora na França. Ou historiadora em qualquer lugar.

3. Na França, as carteiras de identidade tem validade - como se a gente deixasse de ser a gente depois de um certo tempo. O bizarro é que o mesmo nao vale para as carteiras de motoristas, que sao vitalícias. Por isso, é comum ver velhinhos caquéticos, com uma mao no volante e outra na mascara de oxigênio.

4. Eh complexo começar uma relaçao amorosa aqui: no Brasil, você pode ser ficante de alguém durante meses até que um decida elevar a relaçao ao status de namoro. Na França, você é automaticamente namorado de alguém desde o momento em que você o beija – a nao ser, claro, que a coisa se passe numa boate, festa etc. Nesse caso, funciona-se ao contrario : melhor deixar claro desde o inicio que aquilo eh soh uma ficada – coisa que, para os brasileiros é complicado ja que "rolo" e "ficante" sao termos inexistentes por estas bandas.

5. Na mesa, o pao é rei. Ele compoe as refeiçoes de 10 entre 10 franceses, de manha, de tarde e de noite e tem multi funcoes : serve para limpar o prato depois das refeiçoes, auxilia a pessoa na hora de colocar a comida no garfo e, as vezes, é utilizado como comida mesmo.

6. Uma refeiçao festiva na França pode começar no final da manha e se estender durante toda a tarde e entrar pela madrugada. Começa com os petiscos, depois passa-se à entrada (duas ou três), em seguida, ao prato principal (quatro ou cinco); depois, come-se a salada (uns dez quilos). Quando você nao aguenta mais pensar em comida, os queijos aparecem na mesa. Finalmente, quando as lagrimas aparecem no seu rosto e a barriga incha, as sobremesas surgem. Eh por isso que o ultimo shot, logo apos as refeicoes, é chamado de vomitivo.

7.  Como normalmente, vivemos seis meses de frio e seis meses de verao, os primeiros raios solares do ano sao realmente bem aproveitados. O francês, quando vê sol, sai correndo ensandecidamente de onde quer que ele esteja e se joga em algum pedaço de grama e fica la todo aberto, feito uma lagartixa, com as calças dobradas e as mangas ajustadas para que o corpo possa aproveitar o maximo possivel daquele sol frio – aqui se diz que um dia ta bonito quando se faz sol, mesmo que faça o termômetro beire os zero graus. Achei que tivesse entendido o porquê disso apos cinco verões. Mas foi apos cinco invernos mesmo.

(esqueci quem tirou essa foto)

8. Os franceses fumam muito. Eh sabido que as mães francesas oferecem mamadeiras de tabaco para seus bebês.

9. Na franca, as pessoas pedem desculpa quando espirram.

10. Mas, bizarramente, elas assoam o nariz como se estivessem tentando expulsar os pulmões pelas narinas e, no entanto, acham o barulho que isso provoca a coisa mais normal do mundo.

11. Todo francês, independente de sexo ou idade, leva um pacote de lenço de papel no bolso.  E uma carteira de cigarro.

12. Entrando nos clichês, aqui, educaçao e gentileza nem sempre andam juntas. Eles dizem « excusez-moi » quando querem dividir o banco da praça com você, dizem « pardon » quando te triscam no metrô, dizem « bonjour » quando entram no elevador, mas dar todos esses sinais de « educaçao » sem enfeita-lo com um sorriso é bem mais do que normal. Eh esperado. Eh o que me leva ao ponto nove.

13.  Francês é bicho sincero. Franco mesmo. Ele nao leva desaforo pra casa, ele diz exatamente o que pensa (talvez nao em relacao aos seus preconceitos, mas qual é o povo que os admite?). Por isso, tive o prazer aqui de conhecer as pessoas mais sinceras da minha vida e de também escutar as verdades mais desagradaveis.

14. As mulheres curtem um top less, mas o biquini brasileiro nao tem lugar aqui, é muito ousado. A parte de baixo do biquini das francesas é grande e pode virar, dependendo da necessidade do momento, um lençol. Tenho certeza de que as francesas tem dois peitos, mas ainda aguardo sinais da existência das nadegas delas.

15. Dizem que o esporte nacional da França é a bicicleta, mas estou convencida de que é a reclamaçao. Eles reclamam quando estah ruim, eles reclamam quando estah bom, eles reclamam quando estah. Depois de alguma reclamaçao, eles enfeitam a frase com um barulho nao encontrado em qualquer outro povo ou civilizacao ja existente (observaçao de Gad Elmaleh). Trata-se de um PPPPFFFFF que, independente de qualquer frase, indica uma extrema insatisfaçao do seu interlocutor. “Vai ter sol hoje”, PFFFFF. “Vai chover” PPPFFFFF. “Vai fa...” PPPFFFF. “Mas eu nem term...” PFFFF. “Mas...” PFFFFFFFF. “Ma...” PPPPFFFF  PPFFF  PFFFFFF.

16. O "uh lala" dos franceses tem diversas versoes. Para situaçoes mais simples, como um sustinho, eles dizem "uh la !". Para uma noticia horrivel, como uma previsao de tempo para dia ruim, eles dizem "uh la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la la". A duraçao do "la la" eh diretamente proporcional ao descontentamento do camarada. Pode durar dias.

17. No Brasil, falamos do tempo quando encontramos com alguém no elevador para evitar o constrangimento do silêncio. Aqui não. A previsão do tempo é um assunto abordado de maneira proposital! O único assunto que o francês evoca em qualquer parte, com qualquer pessoa, em qualquer ocasião. 

18. Adultos engravatados vao de patinete ao trabalho.

19. Você conhece a densidade demográfica de uma cidade observando o fluxo de pessoas nas saídas do metro. Se você subir em um metrô contra sua vontade ou sair antecipadamente de um metrô que o levaria ao seu destino devido à multidão que entra ou sai dele, você estah em Paris.

20. A ideia de distância do francês é distorcida:
- Tal cidade é longe daqui?
-  Muito longe!
- Quantas horas de viagem?
- Duas.

21. As vezes fico em duvida se um cara aqui é gay ou se ele é soh francês**

22. Aqui em Lyon, os bares costumam fechar à 1h da manha. No domingo, não ha comercio aberto e, durante a semana, muitas lojas abrem as 10h e fecham às 19h.

23. O calendário escolar começa em setembro, então, se alguém disser que “no próximo ano” vai fazer tal coisa, ele esta, na verdade, querendo dizer que, a partir de setembro, ele vai fazer algo.

24. Agosto estah para os franceses como o carnaval estah para os brasileiros: nada funciona. E pior que isso, praticamente toda a população francesa viaja nessa época. Quem ta no norte vai pro sul, quem ta no sul... continua no sul. Eh o lugar do sol, do céu e do sal.

25. Aqui todo mundo se exercita. Os homens sao deliciosos e as mulheres sao gostosas. Até no churrasco francês ha uma boa quantidade de salada envolvida.

26. A carne muito bem passada da França é vermelhona, faz muh e da leite. A carne mal passada aqui se chama “bleu” – azul.

27. Francês é altamente burocrático. Com os funcionarios publicos, você tem que ter senha para pegar a senha.

28. Os jovens saem de casa aos 18 anos mesmo que sua universidade se encontre na mesma cidade de seus pais. Isso é possível graças a um infindável numero de bolsas garantidas pelo Governo. E pais cansados.

29. Graças ao numero anterior, é possível se casar com homens que sabem preparar até javali.

30. Numeros de telefone aqui sao compostos por dez números. Decorei o meu no ano passado quando me inscrevi numa promoção e tive que escreve-lo 45 vezes. Não ganhei a promoção, mas aprendi meu numero.

31. Falar na França exige o domínio do francês e um pouco de matemática. 70 = 60 + 10; 80 = 4 x 20; 90 = 4 x 20 + 10. Ou seja, um numero de telefone pode sair de um 06.84.78.99.91 para um (06) + (4 x 20 + 4) + (60 + 18) + (4 x 20 + 19) + (4 x 20 + 11). Quatro anos de França e eu ainda tenho que olhar os números inscritos no caixa na hora de pagar minha feira no supermercado (e embalar sozinha).

32. Nos shows, o publico canta “seven nation army”, como uma maneira de animar o ambiente fazendo “paaaam pam pam pam pam paaaam! paaaam pam pam pam pam pam pam pam paaaam”. Toda-vez com todo-publico. O “toca Raul” deles é isso.

33. As pessoas aqui não se abraçam. Ja vi melhores amigos dando aperto de mao para felicitar o aniversariante.

34. A única coisa salgada no café da manha francês é a manteiga.

35. Um punhado de folha com uma pataca de purê sem sal pode consistir perfeitamente em uma refeição francesa. Eh pecado passível de pena de morte colocar feijão e macarrão no mesmo prato.

36. Durante as refeições, eles bebem agua – que sao servidas obrigatória e gratuitamente em uma garrafa nos restaurantes. Junto com um cestinho de pao. E um pacote de cigarro. 

37. Uma frase de texto acadêmico francês começa pelo fim, é preenchido de informações (muitas vezes) inúteis e termina pelo começo. A simples frase “O câncer de pulmão, muito comum entre os brasileiros, pode ser provocado pelo fumo” pode se tornar: “Provocado pelo fumo, o câncer, doença de pulmão (português brasileiro) ou cancro do pulmão (português europeu), caracterizada pelo crescimento celular descontrolado em tecidos do pulmão que, se não for tratado, pode se espalhar para fora do pulmão por um processo chamado de metástase, acometendo órgãos adjacentes e, eventualmente, se disseminando para outras partes do corpo, é muito comum entre os brasileiros”. 

38. Com exceção da parte do boxe, não existe ralos nos banheiros.

39. Não existe lavanderias nas casas – lava-se tênis na pia da cozinha ou do banheiro. Alias, não lava-se tênis aqui.

40. Existe cinco farmácias pra cada cidadão francês.

41. Eles não tem números nas portas dos apartamentos e sim os sobrenomes dos moradores.

42. Eh difícil fazer amizade com um francês ou de ter uma conversa intima no primeiro encontro, mas uma vez que a primeira barreira eh transposta, pode esperar ter um amiguinho em quem confiar.

43. 90% de uma verdadeira festa francesa termina em musicas dos anos 80 cantadas em coro por velhos, adultos e crianças.

44. Mulheres podem tomar a iniciativa na hora de dar em cima de um cara, mas serão julgadas por isso.

45. Quando eu falo, as pessoas simpáticas (e ignorantes) respondem em espanhol. 

46. Os franceses tem muitas vezes três nomes e somente um sobrenome. E muitos dos nomes tem referentes à nomes de velhos no Brasil. Conheço Timoteos, Sebastioes, Leopoldos. 

47. Como a prestaçao de serviço custa caro aqui, as pessoas costumam reformar suas casas ou repara-las sozinhas. Isso se chama bricolage e ha lojas gigantes destinadas aos bricoleurs.



* espero que vocês nao acreditem nisso. Foi soh licença poética.

* * no Brasil, parece que é melhor ter um filho psicopata que um filho gay. Fico feliz de ver que aqui os homens se esprimem como querem sem ter medo de que duvidem de sua sexualidade, mas ainda tenho reflexos dos tempos do Brasil. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Azar e a esperança equilibrista

O caminho da luz que eu e Camilo temos que seguir, também chamado divorcio, é um processo longo e doloroso. Mais por questoes de logistica que por questoes emocionais. Ontem foi o dia. Iamos fechar nossa conta conjunta e fazer um passeio pelo tribunal pra dar entrada numa ajuda do governo para o pagamento do adevogado. Estamos de comum acordo pela separaçao. Inclusive, nunca estivemos tao de acordo em alguma coisa, no entanto, estar de acordo nos custa 1,500 €. Acho que a tabela dos nao acordados deve ser calculada em relaçao a sua atitude diante do ex:

Testa franzida e olhos semicerrados: 20 €
Olhar raivoso: 30 €
Grito:
(60 - 80 decibéis): 40 €
(80 - 100 decibéis): 60 €
(100 - 150 decibéis): 80 €
(150 - 200 decibéis): no es posible.
"O Rafa vai ficar comigo": 200 €
"Nao, o Rafa fica é comigo": 300 €
"Quero pensao pro nosso gato": 800 €

Mas antes de saber se fazer carinho no ex acarretaria num desconto, imprimi todos os papeis que nosso advogado nos aconselhou, peguei minha bicicleta e sai de casa. Mal cheguei na esquina e senti que alguma coisa nao estava bem. Nao demorei muito pra descobrir que o grande esforço que fiz para chegar no final da rua provinha de um furo no pneu da bicicleta. Evocando todos os demônios em meios a palavroes e maldizendo a humanidade, voltei pra casa, calma como um anjo, para pegar outra bibicleta.

Aqui em casa, as pessoas sao realmente apaixonadas por bicicletas. Eu, que tenho uma tatuagem de uma bike nas costas, sou a menos apaixonada de todos, contando com apenas duas delas. Tem nego aqui que tem cinco. Entao, nao foi dificil estar de volta à rua com uma bicicleta de dono ignorado, encontrada no jardim. Mas das sete bicicletas que estavam à disposiçao ontem, eu escolhi justamente a que nao tinha freios - deve ser por isso que ela estava à disposiçao. Teria sido mais facil chegar ao meu destino com uma bicicleta sem pneu, mas nao uma sem freios. Mesmo percebendo que ela tinha 10% de freio de um lado e 0% do outro, continuei meu caminho, mas nao sem me perguntar, a cada dez segundos, se eu nao deveria voltar pra buscar uma outra. Cheguei no banco e ainda estava me perguntando se eu nao deveria ter voltado. 

Antes de sair de casa, limpei minha conta pela internet, mas ainda restaram três miseros centavos la. No banco, burocracia francesa:

- Senhor, o senhor quer que eu faça uma transferência para sua conta ou para a conta da madame?

(Camilo com cara de olha-tou-pouco-me-fudendo) - Err... Nao posso "doar" pro banco nao?

(Mulher com cara de cu) - Infelizmente, nohs nao temos o direito.

(Eu, me divertindo muito com tudo aquilo) - :D

E, finalmente, ela fez um recibo pela transferência de três centavos para conta de Camilo. Sou mesmo generosa. Mas se eu soubesse que haveria uma tal movimentaçao por causa de três centavos, teria deixado somente um na conta. Teria sido mais divertido. 

Ao sair do banco, a caminho do tribunal, avisei a Camilo que minha bicicleta nao tinha freio e que a gente teria que ir devagar. Mal subimos na bicicleta, ele olhou pra um semaforo que ficava a um quilômetro e disse "Luci, ja pode começar a freiar". Freei pelo costume de obedecer ao senhor meu honoravel (ex) marido, mas nao é que o conselho foi valido? Ao chegar no semaforo, eu mantinha quase a mesma velocidade de antes. 

Na entrada do tribunal, que dispoe de belissimos bancos de madeira, escolhemos umas pedras que "enfeitavam" o local e sentamos pra conversar besteira. Foi legal. Legal conversar com alguém que te conhece bem pra caralho e nao tem medo do que sabe. Nao senti o tempo passar, mas ainda tinha umas feridinhas que nao estavam cicatrizadas. Mas foi tranquilo  tipo (eu): 

- Quem tem cortado teu cabelo?
- Ninguém.
- Da pra ver.

Antes de passar pelo detector de metais que precede a entrada do tribunal, Camilo me aconselhou a deixar minhas facas e minhas bombas de gas lacrimogênio para tras, o que me fez pensar que os divorcios na França nao costumam ser nada amigaveis. Passei tranquila pelo detector de metais, mas ao tatear minha mochila, o seu puliça me disse que havia tocado "em algo duro e pesado". Até que eu gostaria de possuir algo duro e pesado naquele momento, mas o objeto nao-identificado era meu molho de chaves. Minhas chaves compoem 60% do peso que carrego na mochila, portanto, compreendi a desconfiança. 

Passeando pelo tribunal e nos deparando com pessoas de roupas curiosas, chegamos a um cartaz que dizia "Aide juridictionnelle". Depositamos nosso dossiê que, diga-se de passagem, nao foi aceito. Tinhamos todos os documentos que nao eram exigidos e nao tinhamos nenhum dos quais eles necessitavam. A burocracia francesa, meus amigos, vou explicar como funciona: nao pediram tal documento? Levem-no. Pediram? Levem cinco copias. Quase quatro anos na França e eu ainda nao entendi. Mas volto hoje com a certidao de nascimento do meu cachorro, morto na Paraiba, em 1998. Cês vao ver.

Saindo do tribunal pra recuperar nossas bicicletas, coloquei meu mp3 e Camilo perguntou surpreso: 

- Nossa, o teu ainda funciona?
- Eeeh... funciona, ué. Por que? O teu nao funciona?
- Nem sei, faz tempo que nao uso.

Nos despedimos e, no momento em que coloquei meus fones, vi que o som nao estava saindo como deveria. Gente, praga de ex é pior que praga de mae, é isso? Desconfiada, segui em direçao ao Centro Comercial. Foi quando me deparei com um semaforo. Freei, mas ao inves de sentir o freio, a unica coisa que senti foi o cabo do freio se partindo. Eu olhei pro cabo solto, olhei pra rua, olhei pro cabo solto, olhei pra rua e recorri ao método Fred Flintstone e freei com os pés. Ridiculo. Continuei o resto do percurso até o Centro a pé, levando a bicicleta pra passear, mas me perguntando como eu iria fazer pra chegar em casa (25 min de bike). 

Como ainda faltava umas duas boas horas pro encontro, me sentei em um sofazinho que recebe todos os mendigos da regiao, e eu, e continuei a leitura do meu livrinho. De repente, um cara (que passava anos-luz dos meus criterios de beleza) me pergunta as horas. Pergunta em francês, respondo em francês, mas a continuaçao da conversa é:

- Do you speak english?
- Non.
- Você é de onde?
- Brasil.
- No Brasil nao se fala inglês?
- Nao.
- E você estuda aqui?
- Sim.
- E você mora aqui?

Eu fiz a minha pior cara, a cara mais terrivel. A cara mais cruel. Aquelas que eu soh faço quando o pneu da minha bicicleta fura antes de um encontro importante. Mas mesmo assim, mesmo depois de quase enfiar o livro na minha cara pra mostrar que eu estava indisponivel para conversa, mesmo depois de quase enfiar o livro na cara dele pra ajeitar um pouco aquilo, o cara continuava me perguntando coisas e sorrindo e até mudou de posicao pra ficar mais perto de mim. Oin.

- Moro. Moro com meu marido.

Eh batata, véi. O cara te assedia atééééé o momento em que você convoca a figura (inexistente) de um outro macho. Idiotas. Sério. Vocês pensam o que? Que vocês vao chegar com esse papo mole em uma pessoa que, visivelmente, nao apresenta o menor sinal de interesse e, apos meia duzia de perguntas obvias, a gente vai montar em cima de vocês e implorar por sexo? Vao tentando... Se bem que eu tava com tanta fome que se ele tivesse me oferecido um pedaço de pao seco, eu teria emprestado meu corpo. Emprestado. 

As duas horas e a leitura avançaram. Fui encontrar minhas amigas que estavam acompanhadas de uma muçulmana. No restaurante (finalmente!), falei das minhas aventuras no tribunal e ela contou como foi seu casamento. Disse que usou sete vestidos no dia da festa e, no momento mais esperado, naquele em que ela iria aparecer usando seu primeiro vestido, o noivo dela disse, decepcionado, "ta parecendo o terminator!" 


Casa comigo? 


Eu ri! Mas nao muito que era pra nao constranger demais. Dai, pedimos a boia e, enquanto eu mastigava vacamente minha deliciosa salada, observei que tinha um pedaço de salada transparente que, apos mais alguma investigaçao, se revelou como sendo um pedaço de plastico. Achei interessante a proposta francesa de querer aproveitar até mesmo os sacos plasticos da salada para compor seus pratos, mas ainda nao adotei essa dieta. Perguntei a garçonete o que era aquilo e se eu poderia comer. Ela levou o pedaço da minha salada transparente embora sem dizer nada e nem ganhamos sobremesa gratis. Alias, eu ganhei, mas nao por mérito dela. Valeu, Aline! Pedi minha sobremesa sem plastico e a garçonete nem riu. Franceses.



quinta-feira, 7 de março de 2013

Meu filhote de leao, meu raio da manha

Acho que eu passei tanto tempo sem postar, porque nao queria contar tudo o que me aconteceu nesse ultimo ano, relembrar e cutucar a ferida, mas tambem nao queria atropelar o que eu vivi e o que eu morri (e fiz mais isto que aquilo) e continuar a postar aqui como se nada tivesse acontecido. Entao, sem enrolar e puxando o band-aid de uma vez soh pra nao doer muito, eu vos anuncio que Camilo e eu terminamos. E terminamos ha tanto tempo, que ja nem doi dizer isso. Nao disse antes porque doia, porque eu posso brincar com um tumor raro, com o fato de ter um coracao que nao funciona bem, mas finalmente achei uma coisa da qual nao poderia brincar. Acho que nao preciso enfeitar esse post e tornar essas linhas especiais pra mostrar o quanto foi linda essa relacao, nao eh? Porque, se eu precisasse fazer isso, eu diria que, apesar dos motivos que nos levaram a terminar o namoro, eu nao me arrependo. Eu nao me arrependo de nada. Eu diria ainda, que parece que passou uma vida desde que ele me provocou o ultimo sorriso, mas enquanto eu me lembrar do primeiro, eu vou saber que a gente tinha que passar uma parte da nossa vida juntos. Camilo me colocou num pedestal, cuidou de mim, funcionou no modo "injecao de auto-estima de Luci" durante cinco anos. Se esforcou pra me convencer de que eu era linda. Nao me deixou desistir da faculdade. Ele me deu tanto amor que quase me consertou... 

Mas eu nasci quebrada, amor, e cirurgia nenhuma e amor nenhum vai conseguir me consertar. Eu agradeco a devocao, o esforco e o pedestal. Espero que tu saiba que nao foi o excesso disso tudo que me fez ser fraca nesses anos todos. E eu espero que tu nao se arrependa tambem. Tu fez minha vida mudar (muito antes de eu pensar em por os pes na Franca). Tu me ensinou a nao usar saquinho plastico e a nao ter orgulho. Essa eh uma das melhores coisas que ha em mim e foi tu quem me deu, tu me libertasse de uma prisao. Espero que eu tenha te deixado alguma coisa boa, alem das lembrancas. E agora, vou parar por aqui, porque chorei demais pra quem disse que ja nao doia. 

Senhoooor, por que me fizeste de seda? 

Pelo visto, o jeito eh me fumar...

(Senhoras e senhores, eu voltei).   

sábado, 17 de novembro de 2012

Isso nao é um post.

Nao. Nao voltei. Na verdade, o blog é a ultima das minhas preocupaçoes. Penso até em catar os carrapatos dos macacos do parque, mas nao penso em postar aqui. So tou escrevendo pra dizer que tampouco eu vou parar com o blog (lovo) e que eu tou bem, gente. Ainda tem gente preocupada. Tenho recebido lindos emails, mensagens, pedidos de casamento, mas ninguém me da dinheiro. Prometo um dia responder a tudo direitinho, mas por enquanto, a vida tem me esgotado. 

Vou no parque. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Yes, we can't.

Pirrai doido no parque ontem:

- EU TENHO UM BEBE NA MINHA BARRIGA!
- Tu quer um bebê, Guri?
- Quero!
- Tu sabe... de onde vem os bebês, Guri?
- Nao.
- Pergunta ao teu pai, ok?

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Sou legal?

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Post dedicado a Isa Mena (disse que queria um post, nao especificou o tamanho).

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Toda cura para todo mal

- Como escrever um post de agradecimento sem ser brega ?
- E por que evitar a breguice, Luci ? Seja brega, nao se reprima.

Credo, que mensagem de
agradecimento horrivel
Esse foi o dialogo entre mim e meu eu-menudo minutos antes de escrever esse post. Porque eu até entendo que as pessoas possam se solidarizar com alguém que anuncia uma doença, mas eu nao esperava, sinceramente, pelas mensagens recebidas nas ultimas semanas. Os telefonemas, os emails, as mensagens no blog, as cobranças no FB: nao importou o tamanho, a frequência ou o meio: tudo, cada mensagem me deixou feliz, de olho marejado. Gente que nunca me viu na vida dizendo estar preocupada, oferecendo ajuda. Eh demais pro meu coraçao de banana.  Call me deslumbrada, mas eu acho isso fantastico e me emociono mesmo. Sou mole sensivel. Entao, obrigada. Obrigada mesmo. 

Mas vamos falar do meu parto. 

Assim que cheguei ao Brasil (19 de maio), fui a todos os médicos e fiz todos os exames possiveis para dar inicio ao processo cirurgico. Mas toda semana, a cirurgia era marcada e desmarcada devido à falha na aprovaçao do material da cirurgia que custava em torno de 5 mil reais. Quase escrevi à UNIMED dizendo que eu aceitaria ser operada com uma tesorinha de plastico sem ponta, desde que a operaçao fosse aprovada rapidamente. Eu era a personificaçao da ansiedade, nao via a hora de extirpar Godzilla. 

Entao, um dia, confirmaram a cirurgia. Nunca na historia desse pais uma pessoa ficou tao maravilhada com a ideia de ser aberta por um bisturi. Angela Bismarchi me entenderia. A cirurgia estava marcada para às 10h, mas maqueiro soh chegou depois do meio-dia. Sim, o "maqueiro". Nao sei vocês, mas eu desconhecia a existência desse profissional. Quando ele chegou, me perguntou: "seu coraçao acelerou quando me viu?". Poderia ter acelerado se seu nome fosse Freddy e seu sobrenome fosse Krueger, fora isso, sem chance. Ele ainda disse, com certa dose de orgulho, "o coraçao dos pacientes sempre acelera quando eles me veem". Foi aih que eu lembrei de ficar nervosa, mas nao consegui. 

Chegando na sala de cirurgia, encontrei o cirurgiao, o anestesista e mais duas figuras cuja serventia eu desconhecia. Foi quando ouvi alguém dizer "eu soh fiz duas cirurgias em supra-renal". Quase que levanto da maca no melhor estilo UEPAAAA! Para tudo! Maquistoria é essa de somente DUAS cirurgias? Eu rezei pra que fosse o maqueiro que tivesse dito isso, mas nao pude ter certeza. A anestesia ja estava fazendo efei... hudedz... hnj q;;77§ès !r fie jfgn id ufijr,f...

Limbo.

"Deixa eu ver" foi minha primeira frase (consciente) depois da cirurgia. Eu ainda estava grogue, mas queria ver aquele que me deu tanto pesadelo. Lembro de ter visto no potinho uma coisa redonda dentro de uma agua turva. Era mais ou menos assim: 

Fui levada, como previsto, pra UTI onde fiquei uma noite. Era importante que eu fosse pra UTI pra ser monitorada de perto caso minha pressao caisse (o que normalmente aconteceria devido a supressao repentina do cortisol). Na minha cabecinha inocente, a UTI deveria ser um local de paz e tranquilidade destinado à convalescença dos enfermos. A UTI que fiquei tava mais pra Feira da Sulanca: milhoes de pessoas passando pelo corredor, de maqueiro à eletricista, uma velha que gritava e um grupo de animais, digo, pessoas, que acharam bonito conversar à porta do meu quarto.

Eu ja estava ha 15h sem comer quando uma enfermeira sadica colocou uma bandeja de sopa, suco e gelatina numa mesa inalcançavel e saiu sem dizer nada. "Sera que ela espera que eu mova essa bandeja com o poder da mente, MEU DEUS?" Fixei meu olhar na bandeja acreditando que o pos-cirurgico pudesse ter me dado poderes sobrenaturais. Nao deu.

Eh soh uma mancha
Em seguida, uma dupla de enfermeiras entra no meu quarto dizendo que vai fazer minha higiene (meda). Uma delas me descobre, olha pro meu peito e pergunta horrorizada: "MEODEOS, o que é isso no seu peito?!". Eu ia responder "mamilo", mas pela cara de horror dela, ela deveria estar se referindo a outra coisa. Como meu campo de visao se limitava ao teto, eu imaginei que nao poderia ajuda-la a encontrar a resposta, apesar de eu estar igualmente preocupada.

A segunda enfermeira encarou meu peito e, de maneira passiva e precisa, diagnosticou: "é soh uma mancha". Soh uma mancha?! Em casa eu pude averiguar que nao se tratava soh de uma mancha. Parecia que eu tinha levado uma surra. Infelizmente, a pudicicia me impede de mostra-los a foto da "mancha". Mas eu posso garantir que meu corpo ta bonito. So que ao contrario. Fizeram quatro incisoes na minha barriga, cada uma tem no minimo três pontos. Eu tou parecendo um pirata.

Mas um pirata feliz. Feliz e agradecido.




sexta-feira, 8 de junho de 2012

Pequenas crônicas de um coraçao partido

(O post começa em abril e termina em junho. Sou eficiente?)

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Incomodo e cresço rapido, quem sou eu? 


(Abril - 2012)

Alma Bondosa, também conhecido como Patrao de Luci, mexeu o pauzinho dele, alias, mexeu os pauzinhos dele (ele é médico) e marcou uma consulta para a manha de ontem com um endocrinologista chamado Professor R.  num hospital que fica a 15 min de bicicleta da minha casa.  Que frase grande.

Chegando la, mostrei a meia duzia de exames que eu tinha feito no Brasil. Um deles consistia em um exame de urina onde a coleta deve ser feita durante 24h. O médico disse "mas nao me chegue aqui com meio litrinho de xixi". Camarada! Esse homem nao sabe que eu tenho uma relaçao bastante especial com minha urina e que sou capaz de produzi-la (mas nao de contê-la) aos litros*. Voltei la com duas garrafas pet cheinhas e a sensaçao de dever cumprido.

Recipiente para amadores

Recipiente para Luci

Professor R. olhou um exame e arregalou os olhos. Fudeu, pensei. Depois ele disse a uma aluna que estava presente que ter quatro vezes mais alto o nivel de cortisol era muito e que eu o tinha 20 vezes. Fudeu, pensei de novo. Ele pediu pra ver minhas estrias, deu uma olhada de cima abaixo e perguntou se poderia fotografa-las. Gentem, virei material de pesquisa médica. Enquanto ele nao começasse a falar em lobotomia e dissecaçao, estaria tudo bem.

Entao, no intuito de ter certeza sobre a localizaçao do meu bebê, Professor R. pediu uma série de exames que deveria ser feita num hospital perto da minha casa durante... quatro dias. Fiquei hospitalizada e vou adiantar: nao foi engraçado. Me colocaram esses dois cateteres e acho que tiraram uns trinta potinhos de sangue pros exames. Tiraram pressao, recolheram amostras de saliva, espetaram meu dedo pra medir as taxas de glicose, recolheram urina. Nunca meus fluidos foram tao requisitados.

Numa radiografia, foi confirmado que Godzilla se encontra na suprarrenal direita (essa desgraça so podia ser de direita) e tem 3cm. Me espantei com o tamanho desse negocio, mas o médico disse que a preocupaçao dele era mais pelo nivel de cortisol que eu produzo do que propriamente pelo tamanho do adenoma. Ao ver as marcas deixadas no meu braço pelo torniquete do aparelho que media minha pressao, o Professor R. indicou novos exames, dessa vez, cardiacos. Ele disse que estava preocupado com a possibilidade de eu ter uma flebite durante a viagem de aviao que farei logo mais e prescreveu meias de compressao e uma injeçao anticoagulante (que tomei diariamente durante os dias de internaçao).

(Maio - 2012)

Enquanto eu ainda estava me acostumando à ideia do Cushing, tive a prova de que Deus existe, sim, e que, nao, ele nao sabe brincar: fui chamada no hospital dias depois para fazer uns exames no coraçao e foi descoberto que eu tenho uma pequena cardiopatia: uma ma formaçao no coraçao que me acompanha desde sempre. Ela se chama CIA (Comunicaçao Interatrial). Google amigo:

A comunicação interatrial é uma cardiopatia congênita caracterizada por uma abertura entre os átrios, que permite a passagem do sangue do átrio esquerdo para o átrio direito. O fluxo sanguíneo do atrio esquerdo para o atrio direito resulta em um aumento da saturação de oxigênio em atrio direito, ventriculo esquerdo e tronco pulmonar. O fluxo pulmonar aumentado leva a um aumento da resistência arteriolar pulmonar e insuficuiência cardíaca direita. Pode ser diagnosticada por ECG e seu tratamento é apenas cirúrgico. (Fonte)

Eu até tentei chorar, mas nao consegui. Na boa, pareceu mais piada que qualquer outra coisa. E, como eu ja estava sentimentalmente amaciada pela historia do Cushing, pensei "uma cirurgia a mais, uma cirurgia a menos, nao vai fazer diferença". Eh uma pena que essas coisas a gente nao possa colocar no CV.

2013 - Cirurgia de CIA - Avaliaçao: sobrevivi
2012 - Cirurgia de adenectomia - Avaliaçao: sobrevivi

Nossa, muito bom o seu curriculo. Com o salario que pagamos, seria bom ter uma sobrevivente na equipe. Inglês?

(junho - 2012)

E quem disse que pinto gosta de lixo?
Pinto gosta é de luxo! Oia pra nois!
Mas nao. Seja como for, no dia 18 de maio, eu estava prontinha pra ir pro Brasil. Tava mais feliz que pinto no lixo. Eis que de repente, nao mais que de repente, decido dar uma ultima checada nos meus emails e vejo que meu voo havia sido cancelado e remarcado somente pro dia seguinte. Onda de sorte. Frustraçao define. 

Como ja venho ha semanas fazendo esse post, e, como @s amiguinh@s andam pedindo noticias, vou postar isso aqui e logo mais (ou nao) retornarei com informaçoes mais precisas sobre a data da cirurgia - e, claro, os comentarios toscos acerca da minha viagem, que eu sei que é disso que vocês gostam. 


* Here, there and everywhere. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Piquinicar

Quem nao vai pra comer, pode ir pra sensualizar

Em 2009, através de um pic nic realizado pela finada Amanda, conheci uma meia duzia de amiguinhos, alias, amiguinhas, que mantenho até os dias atuais. Nao é uma historia bonita? Pois bem. Essa pode ser a sua historia, caro leitor. E eis aqui a sua oportunidade: 

Milésimo Pic Nic de Blogueir@s e leitores e curiosos e caes e gatos à Paris!


Isso é quando? Eh no sabado, dia 12 de maio
E a hora? Ao meio-dia 
Onde, Luci? Parc Montsouris, 14ème

Venham todos! 

sábado, 21 de abril de 2012

Tem o Giba uma giba?

Você conhece este homem?


OHMEODEOSDOCEONAOEHPOSSIVEO!

Sim, post novo no caso.me.esqueçam. Antes que Cissa Guimaraes aparecesse aqui em casa com o quadro "Por onde anda...", resolvi mostrar que estou viva e explicar (parte) do meu sumiço.

Em fevereiro, por motivos que nao me covem explicar, fiquei mal da cabeça e doente do coraçao. Tadinha. Diante do meu infeliz estado, meu bob pai e minha mamae quirida me pagaram uma passagem pro Brasil: dois anos longe de casa. 

Quem acompanha minimamente esse blog, sabe que fiz, durante meses, uma dieta pra perder os singelos 13kg que ganhei no ultimo ano. O ganho rapido de peso garantiu estrias pelo meu corpo inteiro. Mas nao eram estrias normais. Estas devem ser estrias mutantes. Nem gravidas de mamutes trigêmeos conseguiriam exemplares como os meus. Minha melhor amiga, quando viu minhas pernas, disse que achou que eu tivesse levado uma surra. Quem dera fosse. Pra vocês verem que eu nao estou exagerando, uma foto de um lado da minha barriga:

Convencidos de que o caso é sério?

Minha mae, diante do quadro, insistiu pra que eu fosse numa dermatologista pra um milagre tratamento e eu aceitei. Chegando la, a médica me olha e, em três segundos e meio, me diz: "você tem Sindrome de Cushing". Oi, pai de quem? Cushing. 

Entao, ela abre um livro que, pelo tamanho, deveria ter meu peso. Ela começa a folhea-lo e eu, curiosinha, arregalo os olhos pra ver as imagens dele. Metade das figuras eram de vaginas brancas, cheias de bolinhas esquisitas e pênis vermelhos com rachaduras. "Minha nossa, minha doença ta aih dentro?". Finalmente, ela para numa pagina onde tinha uma foto de uma pessoa gorda. Eu fico aliviada. "Ah, novidade, ela vai dizer que eu estou gorda". Nao. Entao, ela começa a ler sobre a Sindrome. Wikipedia ajuda.

A Sindrome de Cushing é provocada por altos niveis de cortisol no sangue. O cortisol pode ter origem externa ou interna: ou eu fiz tratamento prolongado com essa substância (99% dos casos, segundo meu médico) ou é minha hipofise que a esta produzindo ou ainda as glandulas supra-renais. Nesses ultimos dois casos, de qualquer forma, trata-se de um tumor. Pois é, viva eu que fui ao Brasil pra descansar e voltei com um tumor na mala. Detalhe, Sindrome de Cushing nao é uma doença comum (dois ou três casos por um milhao de habitantes). Meu médico soh a viu uma vez na vida. Viva eu de novo. 

Mas isso explica um monte de coisa. Nesses ultimos meses, meu corpo mudou muito e eu passei a desenvolver umas mazelas que, pra mim, eram resposta a dieta que eu tava fazendo. Sintomas? 

- Obesidade crônica, sobretudo na parte superior do corpo;
- Rosto gordo (dito "lua cheia") e vermelho;
- Surgimento de estrias violaceas;
- Pele fragil;
- Insônia;
- Afinamento e queda do cabelo;
- Perda de massa muscular;
- Equimose (hematomas);
- Labilidade emocional;
- Acne;
- Ganho de apetite;
- Cansaço nervoso;
- Problemas no ciclo menstrual;
- Aumento de pelos;
- Problemas psicologicos (depressao, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de atençao e memoria);
- Reduçao da libido;
- Aumento do volume urinario;

E ainda: geralmente, a Sindrome traz osteoporose, diabetes, hipertensao e/ou dificuldade na coagulaçao do sangue. Essa porra deve dar até piolho. 

As consequências de um diagnostico tardio: 

- Embolia pulmonar, trombose, diminuiçao da massa ossea (provocando fraturas), obesidade, 4-5 vezes mais chance de morrer em relaçao a alguém saudavel. Ou seja, muito amor.

Olha, com exceçao da acne e dos problemas menstruais, eu tinha, tenho, todo o resto. Eu vou no banheiro pelo menos duas vezes durante a madrugada pra fazer xixi; eu tenho roxos pelo corpo todo e nenhuma lembrança de ter me machucado; os cabelos caem aos quilos; a vermelhidao no rosto é tao aparente que uma vez cheguei em casa e perguntaram se eu voltei correndo do trabalho; nervosismo e tristeza nao precisam nem ser comentados (vide primeiro paragrafo); perda da libido?; fiz o buço pela primeira vez na vida quando o estado dos meus bigodes nunca tinha me incomodado antes - odjio; o cansaço começou a ser grande, mas eu achava que era a dieta e os guris que sugavam minha energia.

O endocrinologista que eu consultei disse que iria fazer um teste simples pra saber se eu tinha Cushing: ele segurou minhas maos, pediu pra que eu agachasse e, em seguida, tentasse me levantar. Eu soh consegui a façanha por ter me apoiado nele e jogado os quadris para tras: com a perda da massa muscular, a Sindrome te tira a força das pernas. Eu soh faltava morrer tentando subir uma escada. Tudo se explica.

Quando fiz a dieta, eu perdi 15kg, ou seja, fiquei mais magra do que estava antes de começar a ganhar peso. Mas o rosto continuou gordo e a pança nao diminuiu tanto quanto era de se esperar. Queria muito ter feito um post "antes e depois", mas com a cara gorda que eu me encontro, vocês nunca iriam notar a diferença. Eu cheguei a ir no médico aqui na França pra tentar resolver isso e ela disse que era normal, que eu iria emagrecer depois. Sei. 

A mae dos moleques é médica e me revelou essa semana que sempre desconfiou que eu estava com Cushing, mas achou indelicado dar essa sugestao na época. Indelicado é deixar a babah morrer, minha gente. Ainda assim, no ano passado, ela chegou a me aconselhar a ida a um endocrinologista caso eu fizesse uma dieta e nao perdesse peso. Acontece que eu perdi, entao logo descartei a possibilidade de estar doente. Ela perguntou por que eu ou Camilo nunca desconfiamos que eu poderia estar doente, mas como eu ja disse, as consequências de uma dieta de proteina pareciam ser uma explicaçao razoavel pra tudo o que estava acontecendo. 

Ha também acumulo de gordura na parte de tras do pescoço que os médicos chama de "giba". Gente, eu tenho uma giba que, infelizmente, nao é essa: 


(ou felizmente...)


Unxi, como é lindo!

Seja como for, diante da possibilidade de estar com diabetes, tive que suspender o chocolate e o alcool (si, pero no mucho) com muita dor no coraçao. Depois de "curtir" alguns dias a ideia de ter diabetes, fiz um exame simples que revelou que eu nao tinha porra nenhuma! - pude aproveitar ao menos a festa de despedida. 

Antes de deixar o Brasil, fiz um outro exame que revelaria onde estah meu bebê tumor (espero que seja um bebê). Havia de 80% a 90% de chance de ser na hipofise. Hipofise, pra quem nao sabe, é uma glandula que fica na cabeça e tem o tamanho de uma ervilha. Ela é responsavel pela produçao de um monte de hormônio importante como o da produçao do leite e o do crescimento. O médico explicou que ele iria "raspar" a parte da hipofise que produz o cortisol.

O que poderia acontecer seria que o cirurgiao poderia raspar além do necessario afetando a produçao dos outros hormônios (e eu teria que repo-los também pelo resto da vida) ou, pior, nao raspar o suficiente me obrigando a fazer uma segunda cirurgia - acho valido lembrar que a cirurgia nao custa dois reau. Num terceiro fracasso, "a gente 'explodiria' sua hipofise numa radioterapia". Uma pena, porque eu nasci com essa hipofise e pretendia morrer com ela. Mas nao por causa dela, entao... Entao, tinha esses 10%, 20% de chance que o tumor estivesse na glâdulas adrenais.

Hoje liguei pra minha mae pra saber o resultado do exame que fiz antes de deixar o Brasil que indicaria a localizaçao do bebê e, guess what!, na sena eu nao ganho, mas meu tumor estah na supra-renal.

djing djing djing!

Essa historia toda me deu um mal humor danado (sobretudo a parte da diabetes). Mas interessante mesmo, foi receber um email de uma professora da faculdade, no mesmo dia em que descobri que tinha Cushing, dizendo que eu estava perdendo aula e... Bom, se eu estava perdendo aula todo esse tempo, significava que eu estava reprovada por falta e que, por isso, nao poderia fazer o mestrado esse ano (e somente em setembro de 2013!). Foi aih que eu, pela milésima vez, surtei. Sinceramente, espero que o mundo acabe mesmo em 2012. Nao esta sendo facil.

Pedi pra Camilo averiguar essa historia com a secretaria e ela garantiu a ele que eu havia finalizado a graduaçao, apesar das disciplinas que cursei semestre passado terem continuidade este semestre. Como eu ja fui ludibriada por esta mulher anteriormente, irei na faculdade exigir uma declaraçao por es-cri-to que indique que eu estou, na mais absoluta certeza, formada. Motivo: minha cirurgia vai ser feita no Brasil e eu nao quero nenhum impedimento ou coisa pendente na França. 

Borboleta, tou chegando. Betty, vou ter que declinar do seu convite pro casamento - ja havia comprado as passagens e tudo mais, mas. Mas havera pic nic de blogs em Paris no mês de maio e mocinhas e mocinhos das redondezas podem se preparar porque quem me lê agora ta convidado. Pode levar marido, Luci? Podji! Pode levar filho, cachorro e periquito? Podji. Pode levar a giba, Luci? Também!


Talvez

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