quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Chega de maças!


Gente, resolvi participar, depois de encerrado, do 4o concurso de blogueiras promovido pela Lola. Nao gosto muito da idéia de "concurso", porque isso me da a sensaçao de competição e eu sou daquelas que prefere nao jogar com medo de nao ganhar, pela pressão etc. Mas a idéia defendida pela Lola, é que os blogs sejam divulgados e que as pessoas possam se conhecer. E, como eu conheci muito blog legal através dos concursos anteriores, resolvi participar deste sem maiores frescuras. O concurso foi dividido em três partes e, caso eu entre, sera somente na terceira, mas vocês ja podem ler e votar pra primeira etapa. Entao, um, dois, três, la vai: A origem do meu feminismo.

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Estava eu lendo um livro à sombra de uma arvore quando, de repente, uma jaca caiu na minha cabeça. Aquele caso curioso provocou em mim um lampejo de auto-observação e, depois de assistir a um rápido filme que se passava pela minha cabeça sobre minha vida, me veio uma revelação extraordinária: "eu sou feminista!" - talvez o caso se torne ainda mais insolito pelo fato de que a arvore era uma macieira. Mas isso nao importa. O que importa é que minha vida mudou a partir dali. 

Ok, as coisas nao aconteceram assim. Na verdade, o processo foi menos romântico e levou mais tempo do que eu gostaria. Ironicamente, me tornei feminista graças a convivência com machistas. Afinal, leitor, sabe você o que significa crescer num dos estados mais machistas do Brasil? Pois eu vou te contar o que é. 

Meus pais nasceram em Campina Grande, interior da Paraíba e, meus avos, nasceram num interior ainda mais interior - tao interior que eu nem sei aonde fica. Nao fui um primor de inteligência, nem dispunha de um senso critico aguçado: sempre fui muito feliz com minhas Barbies, os carrinhos de bebês e as vassourinhas de brinquedo. Também aproveitei bem das "brincadeiras de menino" por ter dois irmaos. Era a única menina na minha escola que sabia fazer uma pipa ou lançar um peão sem perder um olho. Mas nossa irma nasceu e, como eu já tinha nove anos de idade, poderia me ocupar, além das tarefas domésticas, das fraldas cagadas da pequena. Questionada pela razao daquela injustiça, minha mae respondia com naturalidade e inocência: "porque você é mulher. Ou você quer que seus irmaos limpem a bunda da sua irma?" (Bom, na verdade, eu queria). "Prefiro que você lave os pratos, porque seus irmaos nao sabem fazer direito". Eh que se podia ler nos meus cromossomos algo como "Born to be dishwasher". 

Eu, como uma lady que sou, esperneava e gritava. Nao adiantava: centenas de anos de tradiçao estavam contra mim. Minha boa mae, que tinha aquele machismo cravado na pele, nem se dava conta do que estava falando quando dizia que eu deveria aprender a cozinhar porque, do contrario, no dia em que eu casasse, o marido morreria de fome. Meu irmão tinha liberdade pra dizer que ia dormir na casa da namorada. Se eu fizesse o mesmo, eu nao teria os 24 dentes na boca. Meu pai disse que ia escolher meus namorados. Minha mae dizia que falar palavrao nao ficava bem em uma mulher. Um inferno.

A vida de certas amigas igualmente me davam arrepio. Tinha aquela que fechava os livros, em plena época de vestibular, pra fazer o jantar do irmão (que ficava na sala com as pernas pro ar, gritando a fome e devolvendo o prato de comida caso este nao estivesse bom o suficiente pro seu paladar). E aquela outra que me revelou que nao iria perder a virgindade antes do casamento porque nao saberia com que cara olharia pro pai quando chegasse em casa. Ora, cara de quem deu, ué.

Anos depois, conheci o amado e resolvemos nos casar por meras questoes burocraticas (facilitar minha entrada e estadia no pais em que ele nasceu). O casamento era coisa simples (casei de jeans e All Star), mas minha avoh, temendo pela minha honra, me preveniu pra tirar fotos com o juiz, do contrario, eu ficaria mal falada, as pessoas iam pensar que eu tinha apenas me amancebado*. E contou historias de meninas do interior que, nao podendo casar como gostariam, se vestiam de noivas e tiravam fotos pra mostrar a sociedade que mereciam respeito. E nao ha nada pior pra uma mulher que a perda de seu himen sua honra. Minha prima, por exemplo, antes de casar, foi obrigada pelo meu tio a ir no ginecologista pra comprovar sua virgindade. 

*Viver como casada sem o ser

Eh natural que meus pais tenham reproduzido a educação machista que receberam da sociedade e dos meus avos. Por isso, me indago sobre o que me levou a me distanciar da cultura machista da minha família, do meu estado, do meu pais. O que faltou pra prima que cresceu comigo tornar-se feminista? Qual foi o momento que permitiu que eu tivesse esse comportamento quase fobico em relação ao machismo? Sinceramente, soh tenho uma explicação plausivel: foi a jaca. 

Berlim - parte II - lingua, bicicletas e amores

Mais sobre a nossa viagem à capital alema. 

Da (des)orientaçao:

Senti o peso (de novo!) de estar num pais cujo idioma eu nao domino ja nos primeiros minutos em solo alemao. Precisavamos pegar um ônibus, mas as placas me eram indecifraveis. Minha sorte é que eu tenho um namorado orientado, desenrolado e sabido todo ao meu lado. Sério, minha gente, deixa eu babar um pouquinho o amado agora. Acho impressionante o senso de direçao de Camilo. E nao é so porque eu sou uma toupeira nesse assunto. A gente mal chegava nos lugares e ele ja sabia qual o metrô certo, quanto custava o bilhete, a direçao das estaçoes, as ruas, os bairros etc. Eu perguntava aflita se ele sabia pra onde a gente tava indo e ele respondia malandro: "relaxa, meu bem, eu tou em casa". Hahaha Lindo!

E o inglês? Antes de chegar na França, eu nunca tinha ousado falar uma frase em inglês (ok, também nunca tinha precisado). Mas o que é a necessidade, nao é mesmo, meus amigos? Cheguei na França e comecei a usar um inglês que eu nem sabia que tinha! Mas bastou me concentrar no francês e agora eu sou incapaz de ter êxito numa frase em inglês. Sempre sai uma coisa cagada tipo "I would like to parler avec vous". A minha sorte (é, eu sou uma garota de sorte) é que ficamos na casa de uma francês em Berlim e, em Praga, na casa de um senhor que entendia francês, do contrario, eu passaria duas semanas muda.

Feuerwehrzufahrt. Ou seja, "oi".

Do lazer:

Os berlinenses parecem nao se importar com o fato de nao terem praia. Pelo menos tem saidas bem interessantes pra contornar a falta de mar. Nas beiras dos rios, essas cadeiras de praias sao postas e o povo fica ali, na maior tranquilidade pegando um solzinho. No momento da foto abaixo, um nubladinho.



Essa foto acima foi tirada perto do Checkpoint Charlie (explicaçoes mais adiante). Era um cercado com areia e cadeiras de praia no meio de uma avenida movimentada, um pequeno refugio no meio da cidade. O achamos bem por acaso. E alias, achamos outros lugares assim, por acaso, dando uma olhadinha aqui e ali. Adorei os bares de Berlim! Contei mais de dez bares visitados e posso dizer que amei a todos, todos criativos, a maioria com grande espaço a céu aberto, com decoraçao em madeira, super arborizado. Eh uma pena que eu nao tenha tirado mais fotos pra mostrar a vocês.


Esse é um bar à beira do rio Spree, perto do Muro. Em Berlim tah rolando uma polêmica que ja dura alguns anos sobre a ocupaçao dessa area da foto acima. Ha uma infinidade de bares parecidos com esse na beira desse rio que esta prestes a desaparecer graças a um projeto do governo, o Media Spree, que visa a construçao de varias empresas de grande porte nessa area. A area é do governo, mas é inegavel a importância desses bares, nao soh pros seus donos, mas pra vida cultural da cidade. Achei uma pena, espero que dê tudo errado :D


Da comida:

Como eu ja disse, francês é um povo muito saudavel e, depois de visitar Berlim, essa impressao soh aumentou. Eu tava completamente desacostumada a ver gente acima do peso. Mas também, pudera!, a cada dois metros tem alguém vendendo comida gordurosa. E barata. Minha gente, o Kebab em Berlim custa DOIS euros. E o melhor de tudo: tem cara de comida, nao é como o Kebab francês: é barato, o molho é uma delicia e a salada vem em quantidade generosa. Foram os melhores Kebabs provados. Mas quem quiser comer o hamburguer perfeito, vai no Burgermaister. Juro que foi o melhor hamburguer que ja comi na vida. Você come meio triste porque sabe que uma hora ele vai acabar.

Do meio ambiente:

Quem vai a Berlim pode também se impressionar com duas coisas: a quantidade de arvores e de bicicletas. Mesmo dentro da cidade, em meio à loucura dos carros, tudo é arborizado, lindo. E ha bicicletas por todos os lados, numa quantidade muito maior que em Lyon (e olhe que em Lyon a tradiçao de usar a bicicleta é grande).


Do transporte:

Nico, nosso anfitriao, nos aconselhou a alugarmos duas bicicletas, mas o preço era meio salgado: uma semana de locaçao por 40€ por pessoa. Como eu sou uma pessoa meio... desempregada, preferi pegar o bilhete de metrô que custa 25€ (por pessoa) pelo mesmo periodo. O bilhete de metrô custa 2,60€. Nao que isso devesse interessar, mas nas estaçoes de metrô nao existem catracas, no entanto, os controladores estao por aih pra manter a ordem e a lei, amém, através de suas multas (40€).

Dos pontos turisticos:

Como é impossivel falar de todos os lugares dos quais visitamos (impossivel = estou com preguiça) vou postar algumas fotos de alguns lugares visitados com comentarios superficiais. O Wikipedia esta do seu lado.

Igreja Kaiser-Wilhelm Gedächniskirche. Foi bombardeada e permanece assim desde 1943. Nao foi reconstruida pra que servisse de lembrança da Guerra. No entanto, uma nova igreja, super moderna, onde os padres rezam de sunga preta (brincadeira), foi erguida ao lado. Mais sobre a igreja aqui.


Toda cidade que se preze, tem uma construçao falica. Aqui, a Torre de TV e seus 368m. Enooorme.


A maior catedral de Berlim: Berliner Dome (inicio do século XX).


Altes Museum. Segundo o Wikipedia, "o maior e mais importante museu do mundo no campo da arte antiga da Grécia, Roma e Etruria". Agora, uma bala na testa por soh estar sabendo dessa informaçao agora.

Altes Museum ontem


O Checkpoint Charlie era um dos pontos de passagem do Muro entre os setores americano e soviético. Controlado, é claro. Parada obrigatoria pra quem vai a Berlim. O Museu do Muro fica logo ao lado e, claro, temos o McDonalds ao fundo.


Outro museu fantastico: Topografia do Terror, logo ao ladinho do Muro, no terreno em que ficava o escritorio principal da Gestapo. Tem uns paineis incriveis com fotos, documentos e textos sobre as barbaridades nazistas. Entrada gratuita.


Memorial do Holocausto, homenagem aos judeus mortos.


Portao de Brandemburgo, visita indispensavel, palco das manisfestaçoes quando da queda do Muro.


E, claro, o Muro. Ah, e fiquei chocada quando vi numa lojinha de souvenirs pedaços do Muro à venda. Um pedaço que media um palmo por uma bagatela de... 40€. Depois entendi que aqueles troços que vinham pregados nos cartoes postais eram, na verdade, pequenos pedaços do Muro. Quem garante a originalidade? Prefiro investir meu dinheiro de outra forma.


Seguindo a dica de uma leitora, a Lu, saimos de Berlim e fomos a Potsdam, uma cidadezinha a 30min da capital. Pegamos emprestado duas bicicletas do cara que também nos cedeu o quarto na casa de Nico e seguimos de trem pra cidade. Tivemos que pagar um bilhete de trem pras bicicletas também, mas nao lembro quanto custou. A cidade é cheia de pracinhas e parques lindos. Na foto, o palacio de verao de Frederico, o Grande, Rei da Prussia. O nome do palacio é Sanssouci ("sem problema").


Fomos ainda no Museu Anne Frank. A entrada custa 5€, mas Camilo dizia que éramos estudantes, entao pagamos meia entrada em uns três museus. Depois dizem que brasileiro é que é malandro. Pobi de nois. Esse museu é minusculo, mas satisfez minha curiosidade. Ja falei o quanto amo a moça aqui. 


Amei Berlim, sobretudo o Klaus. Querido, se você estiver me lendo, saiba que jamais o esquecerei. Beijos. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Uma... carreira de deputado falida

(Avisando que, desde que eu comprei esta porra de computador que eu nao tenho paz com as ediçoes do blog. Hora a letra fica grande, hora desaparece, as fotos nao ficam onde devem. Entao, desisto! Apesar da agonia em ver as fontes diferentes de um post pra outro, eu desisto). 

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Os dois proximos (e ultimos) posts sobre a viagem à Berlim estao prontos, mas antes de posta-los, preciso falar sobre uma coisa mais urgente: a imbecilidade humana. 

A unica maneira que tenho de ter informaçoes sobre o Brasil é através da internet, ja que mal falo com minha familia ou amigos. Dai, quando leio certas noticias em blogs ou Twitter, fico sem saber se é brincadeira das pessoas ou se a coisa é mesmo séria. Por exemplo, Tiririca na politica e seu bordao "pior que tah nao fica": eu devo acreditar nisso? Eh, eu devo.

Eu adoro o espirito brincalhao do povo brasileiro, o dom de amenizar o peso de qualquer tragédia através de piadas criativas. Mas até onde é direito nao levar a sério também a politica? Até onde é engraçado e permitido?

Aih vem o KLBosta se meter a deputado. Suspiro e me pergunto novamente: é sério? Eh, é sério.  Entao, vejo essa entrevista. Na primeira pergunta, o cara diz que a pedofilia merece ser combatida - e eu me pergunto onde ta a novidade. Na segunda pergunta, o cara ja começa a cagada: "familia é pai, mae e criança, como Deus criou". Otimo, traumatizemos nossos filhinhos: se você nao tem pai ou mae, você nao tem familia, viu? (E olha que eu vou me furtar de comentar o "como Deus criou").

Aih vem a parte que eu AMEI: sobre a descriminalizaçao das drogas.

Kiko: Quem fuma maconha é um p. de um burro, que esta queimando o proprio cérebro - nao sei vocês, mas fico feliz de poder sonhar com um candidato que tem essa postura de chamar o usuario de drogas de "um puta de um burro".  Excelente.

Leandro: Sou definitivamente contra. (...) Me diga uma coisa: imagine que as drogas fossem legalizadas. Dai você um dia precisa viajar e vai tomar um aviao e vê que o piloto esta cheirando uma carreirinha de cocaina. Você entraria nesse aviao? Porque é isso que vai acontecer. 

Minha gente, eu ri alto. Ri alto porque, né, até parece que o piloto que é usuario soh nao cheira no trabalho porque a droga nao é legalizada no pais. Meu Deus! Ele nao cheira pelo mesmo motivo pelo qual nao chegamos bêbados no trabalho mesmo com o alcool sendo legalizado. Questao de bom senso. Por essa linha tosca de raciocinio, "nosso" candidato à deputado deve defender que camisinhas nao devem ser distribuidas nas escolas publicas pelo risco de incentivarem adolescentes ao sexo. Acredite, quem nao fuma maconha, nao vai começar a fumar graças a descriminalizaçao. E quem fuma maconha vai sempre fumar maconha, com ou sem incentivo, dentro ou fora da lei. E os jovens vao continuar trepando, com ou sem camisinha. Ignorar isso soh vai tornar mais despendioso a resolucao dos problemas que chegam por tabela. 

E, pra finalizar com chave de ouro: o aborto.

Kiko: Eh logico que é crime. Aborto é homicidio, como nossa musica (ok, ele nao disse isso). A juventude hoje nao esta muito preocupada em ter responsabilidades, so quer curtir. No Carnaval, em vez de incentivo à familia, temos lei de incentivo à putaria - as pessoas nao falam de responsabilidade social, soh ficam distribuindo camisinha e falando de sexo. Nao é assim que funciona.

Eh, a saida é cortar o pinto de todo mundo e acabar com essa, usando o termo utilizado pelo senhor candidato, putaria. Tamo bem servido, viu...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Berlim - parte I - Mercado, pichaçao e museu

Finalmente voltamos de viagem. E, apesar da preguiça monstruosa de escrever sobre o que se passou, vou faze-lo pra evitar que certas lembranças se percam. Lembrando que eu nao sou guia de viagem e, apesar da minha intençao em dar informaçoes sobre as cidades visitadas, a escrita vai girar em torno do obvio: minhas impressoes sobre os lugares e pessoas. Afinal, informacao pratica sobre a cidade, você encontra na internet.

Berlim (12 a 20 de agosto):

Chegamos tarde da noite na cidade e fomos recepcionados por um amigo de Camilo, Nico, que iria hospedar a gente durante toda nossa estadia na cidade. Assim que colocamos as mochilas no chao da sala dele, veio o convite que eu adoro: vamos tomar uma cerveja?

Macaco gosta de banana?

Chegamos à calçada, entramos por uma porta que ficava justo ao lado do prédio, descemos uma escada, seguimos por um corredor e encontramos um bar, assim mesmo, bem escondido. O cara mais discreto do bar tinha uma cartola vermelha na cabeça. As pessoas estavam todas loucas e bêbadas. E cagou quem pensou que isso é obvio, ja que bar é lugar de bêbado: na França ninguém fica bêbado em bar, a nao ser que seja rico (250ml de cerveja a 2,50€, oi?). Portanto, ponto pra Berlim que tem cerveja barata.

A "decoraçao" do bar consistia em um guarda-chuva aberto em cima de uma geladeira, uma garrafa de Pitu (sério!) sobre uma mesa e uma luminaria brega no balcao. Com certo espanto, vi que o tabaco era liberado no pequeno espaço fechado, porque na França... nao é.

Com tanta gritaria, confesso que fiquei um pouco intimidada naquele lugar. Entao, quis logo saber o que Nico poderia dizer sobre Berlim e seu povo. Ele disse que la, as pessoas tem mais liberdade pra fazer o que querem. Se você quiser deixar o seu comércio aberto até as 5h da manha, você pode. Se quiser fumar em lugar fechado, você fuma (com excecao de alguns restaurantes). E que esses tipos de concessoes, ao contrario do que as pessoas pensam, sao utilizados com bastante consciência pelo povo. Na França, por exemplo, nao se pode beber no meio da rua. Em Berlim, apesar do alcool ser liberado, bom e barato, os niveis de violência nao sao grandes e Nico chegou mesmo a dizer que nao lembra de ter visto nenhuma briga durante os seus anos em Berlim. Disse que o povo era muito tranquilo, de paz. A tomar pela Historia, seria um pouco dificil crer nisso. Ainda bem que eu tive a oportunidade de ver com meus proprios olhos o quanto tudo isso é verdade. Duas vezes felizarda.

No dia seguinte, fomos a um mercado turco. Ele era gigante em comprimento, mas pequeno na largura, mas satisfez meu maior desejo de consumo até entao: a compra de um milho. Nao, eu nao sou tao humilde assim. Eh que vocês nao entendem: eu poderia passar o resto da vida me alimentando de frango, milho e batata. Entao, encontrar um milho amarelinho, quentinho e suculento, depois de um ano sem comer nenhum, por um misero euro, me fez muito feliz. Andamos todo o mercado impressionados por nao termos recebido nenhum empurrao ou ter visto gente bufando com a velocidade da marcha.

No final do mercado, uma movimentacao estranha: era o povo - adulto, velho e criança - que tinha parado pra ver uma banda de swing. Outra grande delicia desse dia. A banda era tao competente, apesar do jeito mambembe, que fomos ve-la outra vez na noite do mesmo dia num bar.




Alguns souvenirs da cidade, como camisas e canecas, tem o famoso "I ♥ NY" inscrito, onde o "NY" é coberto pelo nome "Berlim" pichado. A brincadeira tem explicaçao simples: a quantidade de pichaçao nos muros da cidade salta à vista. As paredes, as placas, as latas de lixo, o chao: quase tudo é recoberto de pichaçao, arte de rua. Em outro momento (nos tempo no Brasil), eu nem teria notado isso, mas em Lyon uma pichaçao nao dura muito tempo nas paredes. Outro dia, o grande NIQUE LES FLICS ("fodam-se os policiais") escrito numa esquina daqui durou uma semaninha, mas por la, parece que é estilo de vida:



Outra coisa que me impressionou na cidade foi a qualidade dos seus museus. O primeiro que visitamos foi o Museu da Historia de Berlim, super criativo, organizado e interativo. Dava pra sentir como era viver em cada época retratada, nada daquelas leituras maçantes tipicas dos museus. Otima atividade pras escolas fazerem com seus alunos e os pais, com seus filhos.

O museu começa retratando as três principais religioes existentes na cidade: judaismo, islamismo e cristianismo. Para isso, havia um armario com três colunas de gavetas (uma para cada religiao), que, ao serem abertas, mostravam objetos e simbolos referentes a cada tema ligados aos seus costumes - uma gaveta pro nascimento, outra pra morte, pros hinos, pros livros sagrados, pros lideres espirituais etc.

Pra representar a Primeira Guerra, nada mais eficaz que um cemitério e videos sobre o assunto. Nos anos 20, época de grande desenvolvimento econômico, réplicas gigantes de maquinas fotograficas, carros e um pequeno cinema instalado onde trechos de filmes alemaes eram exibidos. A sala que eu mais gostei foi uma que representava a louca vida industrial: sala escura com caixas de som reproduzindo o barulho das maquinas. Ao chegar perto das maquinas em exposiçao, o chao tremia, fazendo o visitante sentir como era o desconforto e a vida estafante dentro das industrias berlinenses.


Maquinas

A proposta inicial era imitar um trabalhador batendo ponto,
morto de sono. Mas saiu uma coisa meio... débil mental. Falhei.

Fotos de celebridades alemas. A medida em que iamos
descendo as escadas,onde as fotos estavam instaladas,
certas pessoas iam sumindo,tendo suas fotos substituidas por um
papel onde se lia "morto", "desaparecido" ou "preso".

Na época da Guerra Fria, a representaçao de uma tipica sala
de estar do ladooeste do Muro com sua TV à cores,
seu radio e seus moveis "modernos".

Do lado leste, o modesto

Ambas as salas divididas pela ameaça de uma guerra nuclear

E por falar nisso... O melhor foi realmente a visita a um abrigo nuclear que fica a alguns metros do Museu (cuja visita guiada é gratuita). O bunker foi construido em 1974 e tinha capacidade pra abrigar 3000 pessoas. Mas aih vem os problemas: o abrigo, na verdade, era um estacionamento e, caso houvesse um ataque nuclear, levaria-se pelo menos uma semana pra retirada completa dos carros e mais uma segunda semana pra organizar a provisao de comida. Algo me diz que, depois de duas semanas expostas aos efeitos de um ataque nuclear, as pessoas nao iam precisar de um abrigo. Mas acreditava-se que bastava um banho pra que a pessoa contaminada pudesse se juntar à gente saudavel que, por ventura, ja se encontraria no bunker.

Dormitorios

Cozinha

E os problemas continuam:

- Caso as camas estivessem armadas, nao haveria espaço pra caminhar dentro do abrigo;

- O gerador de eletricidade tinha capacidade pra funcionar apenas durante uma semana;

- O fim da eletricidade impossibilitaria o funcionamento do sistema de troca de ar com o exterior e, como a humidade no bunker chegava a 90%, as doenças se propagariam rapidamente;

- O unico espaço reservado pra que os doentes ficassem separados das pessoas saudaveis era na sala onde se planejou colocar os (provaveis) mortos.

- A comida duraria em torno de uma semana;

- Caso houvesse mesmo uma bomba, ela nao poderia cair proximo ao abrigo e ainda deveria ter o impacto inferior ou igual ao de uma bomba antiga, como a de Hiroshima - o que eu duvido muito que seria o caso. Somente assim poderia-se esperar por sobreviventes

Viva a privacidade

`A parte de tudo isso, eu penso no terror psicologico pelo qual iam, inevitavelmente, sofrer essas pessoas. Provavelmente, elas iam surtar antes mesmo que as provisoes de comida e a eletricidade acabassem, afinal, imagine você ter que viver, cotidianamente, diante da ameaça constante de uma guerra nuclear e depois, ter que dividir um espaço abafado e escuro com 3000 desconhecidos, por sabe-se la quanto tempo, onde o maximo de atividade seria dormir (sem nenhum conforto ou tranquilidade) e ouvir o tempo todo sobre os medos alheios. Nao pude deixar de lembrar de "Ensaio sobre a cegueira".


Essas maletas penduradas sao a representacao de uma historia que as maes contavam pra acalmarem seus filhos. Na epoca, elas diziam que, caso houvesse um ataque nuclear, bastava que as crianças colocassem suas maletas sobre suas cabeças que elas estariam protegidas.

Ainda no Museu, o labirinto pelo qual vai seguindo o visitante, passa por reproduçoes de ruinas da cidade à época da Segunda Guerra e videos reais dos sobreviventes andando pelos escombros. Eh de passar mal. A visita segue mostrando a diferença entre as duas Berlins divididas pelo famigerado muro. E como a visita termina? Desembocando propositalmente numa superloja de souvenirs, onde soh ha espaço pra uma coisa: o consumo.

Endereço: Kurfürstendamm, 207-208
Horario: Aberto diariamente das 10-20h (ultima entrada às 18h)
Ingresso: 10€. 8€ estudante

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Update: quer ler bons posts sobre Berlim? Ela é americana: parte I e parte II

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

03. Do que é diferente - Kebab


Uma das comidas mais populares aqui na França é o Kebab (no Brasil, conhecido como churrasco grego. Quer dizer, em algumas partes do Brasil, ja que eu jamais ouvi falar em churrasco grego na minha vida). Curiosamente e, como o nome sugere, o Kebab nao é uma comida francesa, mas de origem arabe. E, como os arabes andam aos montes por aqui, a comida se tornou popular (existindo, inclusive, em muitos outros paises europeus). O prato, originalmente, era comida dos reis persas. Os iranianos soh consumiam uma vez ao ano. Na França atual virou fast-food e todo mundo consome, do francês do nariz mais arrebitado à brasileira mais faminta.

Grosseiramente falando, Kebab é um pao com carne, salada e molho que pode vir acompanhado de fritas. Notou alguma semelhança com o que você ja comeu no Brasil? O Kebab é um troço enorme, que mata a fome de qualquer elefante por preços que variam entre 4€ e 7€ o menu (kebab + fritas + refrigerante). A carne (de boi, cabra, carneiro, cordeiro ou frango) é preparada na vertical, num espeto que fica girando proximo a uma grelha. Depois, pequenos pedaços sao retirados com facas enormes - ou eletricas, que garantem fatias mais fininhas.


Os molhos sao o que me fazem notar a diferença entre um hamburguer brasileiro e um Kebab. Curry, tartare, picante, branco e por aih vai. Todos uma delicia! Peço sempre o branco, porque um dia pedi um picante (sem saber do que se tratava, claro) e passei 20 min com a sensaçao de estar mastigando um pedaço de brasa. Em cada esquina do Brasil tem um lugar onde se vende coxinha, pastel, hamburguer e pizza a preços acessiveis. Na França, se você esta fora de casa, tem fome e pouco dinheiro, o Kebab é a unica solucao. Os menus nos restaurantes nao custam menos de 8€. E se você tem pressa... O melhor sao os nomes que qualificam os diferentes tipos de Kebab e molhos. Senjeh, Bareh, Koobideh. Nao é a toa que eu sempre deixo Camilo fazer o pedido: pedir comida arabe com sotaque francês nem sempre é obvio.

Talvez

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